AQUAE possui cinco protagonista.
Abaixo você poderá ler uma amostra de apresentação de cada um deles.
Capítulo 01
Cidade-Continente de PORTUM
Anna Smith
O PASSADO PRESENTE
— Ahhhh! Eu não aguento mais estudar essa geografiaaaa! Isso é muito chatoooo!
— Para de reclamar Nicolas, a nossa prova é amanhã e o professor Link não dá moleza, então estuda logo se não quiser levar bomba na prova!
— Vamos agora só ver o mapa-múndi, tá bom?
— Ah! Esse até que eu gosto, Anna.
— Sério! Você gosta de estudar esse?
— Não! Estudar não, eu gosto é de ver a figura das cinco Cidade-Continentes, e de AQUAE também, elas são muito engraçadas!
— Olha só a nossa Cidade-Continente de PORTUM, não parece uma pessoa sentada com as pernas cruzadas, tipo fazendo uma meditação?
— Você é doido mesmo, meu irmão!
— Onde já se viu uma ilha gigante como a nossa, praticamente um continente, parecer com uma pessoa?
— Parece sim Anna, e olha só essa outra aqui, vai me dizer que a Cidade-Continente de ASPEROMARI não parece duas pessoas, uma de costas para outra?
— Hahahaha, verdade, Nicolas!
— Olha esta outra aqui, não parece o rosto gordo do professor Link com as suas bochechas rosadas?
— Hahahaha!
— Agora o mapa da Cidade-Continente de VIRIDI é muito feio, parece um sapo Anna, hahaha.
— Olha a de FRIGUSAQUA, não é bonita?
— Parecem dois golfinhos pulando da água, muito fofo, não é? — diz a pequena Anna para o seu irmão Nicolas, enquanto estudam em uma bela tarde ensolarada na mesa da cozinha, de onde se pode ver o azul do oceano que se harmoniza com todo o céu.
— É, mas os canhões dos navios deles não são nada fofos, você sabia Anna que eles têm a maior grande quantidade de navios? Mais que todas as outras quatro Cidade-Continentes juntas! Foi o Gabriel que me falou. — disse Nicolas com olhos arregalados.
— Mas também né Nicolas, olha aqui, a Cidade-Continente deles fica do outro lado do mundo, é o lugar que fica mais longe do antigo continente abandonado de AQUAE.
— É longe mesmo!
— Tadinha de AQUAE, não mora mais ninguém lá, né?
— Um dia eu vou lá Anna, vou ver com os meus próprios olhos o lugar que deu origem a todas as Cidade-Continentes. — disse o pequeno Nicolas franzindo a testa e levantando a cabeça.
— Você é louco mesmo, não é Nicolas!
— Você não ouviu que o professor Link falou que ninguém pode ir lá? E isso desde que caiu aquele meteoro gigante. Todo mundo teve que sair de lá e fugir, e o professor ainda disse que já faz quase duzentos anos!
— Ah! Eles eram todos um bando de covardes, porque valente não corre, se eu estivesse lá!
— Ah, é! Então me diz aí, valentão, como é que você iria respirar? Porque depois que o meteoro caiu lá, começou a soltar um gás por toda a parte, e está lá até hoje, o gás cobre a Cidade-Continente inteira, e olha que AQUAE é de longe a maior de todas elas.
— O professor disse que esse gás se não matar, deixa louco, e é por isso que todo mundo fugiu. Alguns foram para ASPEROMARI, outros para VIRIDI, PORTUM, SCOPULIS e também para a fofinha FRIGUISAQUA.
— É, mas quando eu for um grande Capitão de um navio igual ao nosso pai, eu vou até lá ver essa história direito!
— Capitão igual ao nosso pai!
— Você está achando mesmo que é fácil, não é?
— Pois fique sabendo que você vai se perder no mar!
— Você sabe quanto do nosso planeta é coberto por oceano? Sabe!? Me diz aí, capitão Nicolas!
— Eu sei que é bastante, e isso não vai me parar, nada vai o capitão Nicolas Smith!
— Presta atenção, a gente já estudou isso, o nosso planeta é coberto por noventa por cento de água, é por isso que todas as Cidade-Continentes possuem tantos navios.
— Eu sei, eu sei, eu sei de tudo isso, você não tem que me ensinar nada disso, afinal de contas eu sou o irmão mais velho.
— A mãe disse que são só dois minutos mais velho! Tá!
— Não importa, sou o mais velho e é por isso que vou ser o Capitão e vou afundar o navio de todos os nossos inimigos, e vou acabar com essa guerra de cento e vinte e cinco anos!
— Eu não gosto da guerra Nicolas, não devia existir guerra no mundo, devíamos viver todos em paz, eu fico toda tremendo só de pensar nela.
— Fico sentindo umas coisas muito estranhas quando o nosso pai sai com o navio dele, morro de medo dele não voltar mais, ou até mesmo dos marinheiros de SCOPULIS chegarem até aqui e invadirem a nossa cidade e matar todo mundo.
— Oh! Minha irmã! Não se preocupa!
— Nosso pai é o maior Capitão de navio de guerra que existe, ninguém vai conseguir afundar o navio dele.
— E aqueles caras de SOCUPLIS jamais vão conseguir nos vencer, como que é o apelido deles mesmo que o professor nos ensinou?
— Os Relaxados, não é?
— Então, como é que um Relaxado vai conseguir vencer a gente? E tem mais, se um deles conseguir chegar até aqui em casa eu te protejo minha irmã, protejo você e protejo a mãe, porque eu amo vocês!
— Também te amo, meu irmão! E nós vamos proteger um ao outro para sempre!
— Isso mesmo! Para sempre, Anna!
— …
— ...orda! ...orda!!!
— Ah?
— Acorda An...! Acorda Anna! ACORDA ANNA!
— Ah? O quê?
— ACORDA ANNA! CARAMBA!
— O que foi, Gaia? O que está acontecendo?
— Você não ouviu o Capitão te chamar pelo interfone?
— Estou tentando te acordar há mais de cinco minutos, caramba!
— Nunca te vi dormir pesado desse jeito!
— Tá! Tá! Estou indo! Estou indo!
— Onde está meu sapato? — pergunta Anna Smith, pulando de sua cama na cabine do navio, que divide com a sua amiga Gaia.
— Ali Anna! Ali! Caramba!
— Eu sei que não é seu turno, mas se o capitão Odair chamou a sua Suboficial é porque é importante, puxa vida!
— Eu sei! Eu sei, senhorita Gaia Moraes... pare de falar, você está me atrapalhando, eu preciso me trocar! — continua dizendo Anna, enquanto mexe apressadamente os seus cabelos pretos de tamanho médio.
— Anna, enquanto você dormia falou o nome do Nicolas, sonhou com ele novamente, não é?
— De novo um pesadelo, amiga? — pergunta Gaia, sentada em sua cama apertando em seguida os seus lábios enquanto assiste à agitação de Anna Smith.
— Sonhei Gaia, mas... desta vez não foi um pesadelo, na verdade, acredito que foi mais uma... recordação de infância do que um sonho… capitão Nicolas!
— Ele queria ser um Capitão de navio Contratorpedeiro furtivo, igual ao do nosso pai.
— Quando crianças prometemos um para o outro que seríamos como ele, iríamos seguir os seus passos e ser grandes marinheiros.
— Eu até acredito que já te contei que durante o período da academia naval, nós ficávamos constantemente nos cobrando para sermos os melhores da turma.
— Tínhamos que ser os mais disciplinados, os mais perfeitos e os mais determinados, sermos os melhores no lema da nossa marinha: disciplina, perfeição e determinação, porque só assim poderíamos ser como o nosso pai.
— E até mesmo após nos formarmos e sermos designados para servir em navios diferentes, mantivemos o contato diário pelos nossos transmissores, nem que fosse só por mensagem de texto, e é claro que sempre tinha a cobrança de seguirmos os passos do nosso falecido pai.
— Vivíamos imitando ele nas nossas brincadeiras de criança, mas eram poucas as vezes em que o Nicola deixava eu ser o Capitão, ele sempre queria ser o capitão Nicolas Smith, filho do grande Francisco Barroso Smith.
— Até tenho certeza de que ele seria muito bom, seria um grande Capitão igual ao nosso pai, mas é claro... se eu não o tivesse matado. — disse Anna, soltando um suspiro e abaixando o olhar.
— Para Anna! De novo não! A gente já conversou sobre isso, a sua terapeuta já conversou sobre isso…
◄)) — Suboficial Anna, apresente-se à Ponte!
◄)) — Suboficial Anna, apresente-se à Ponte!
— Anna, quanto à morte do Nicolas...
— Depois a gente conversa Gaia, me chamaram de novo, eu já devia estar na Ponte de Comando!
— Ah! Obrigado por me acordar! — disse Anna, saindo apressadamente pela estreita porta de metal de sua cabine.
Capítulo 02
Cidade-Continente de ASPEROMARI
Junior Muller
O ÚNICO ICEBERG DO OCEANO
—... leme a quarenta e cinco graus a bombordo... motor a 2/3... lançar dois MG-5 no cruzador líder a estibordo... aliviar leme... motor a pleno... canhões secundários, fogo à vontade naquele cruzador dos traiçoeiros... o porta-aviões dos relaxados está ao alcance dos canhões principais? — pergunta o Comandente do navio, com a sua voz alta e grave semelhante à de um trovão.
— Leme a quarenta e cinco graus e motor a 2/3, senhor!
— Lançado dois MG-5 no cruzador líder, Comandante!
— Leme aliviado e motor a pleno, senhor!
— Abrindo fogo com canhões secundários na popa do cruzador dos Viridianos, senhor!
— Chame-os de Traiçoeiros, Tenente — repreende o Comandante do navio, sem mudar a direção do seu olhar.
Somos ensinados desde cedo pelos nossos pais, e também pelos nossos professores, a chamar os moradores da Cidade-Continente de VIRIDI pelo seu apelido: os Traiçoeiros, ao invés da sua naturalidade, que no caso deles é Viridianos.
Isso não é feito apenas com eles, mas também com todas as outras Cidade-Continentes, mas é claro, cada um com o seu apelido.
Até mesmo os nossos aliados nesta guerra que são os nascidos em PORTUM, não os chamamos de Portis, mas sim, de os Burros.
Muitos já se esqueceram dos motivos que nos levaram a desprezar as demais Cidade-Continentes, assim como também muitos nem se lembram mais por que a guerra começou.
Lembro que meu pai sempre me dizia que os Traiçoeiros já foram nossos aliados, há muito tempo, mas nos traíram e passaram para o outro lado.
O que ele sempre dizia, assim como o meu avô também, é que somente nós, os Asperianos, é que realmente possuímos algum valor.
Houve um tempo em que eu não me importava com essas coisas, mesmo sendo repreendido pelo meu pai e pelo meu avô.
Naquela época toda a minha atenção tinha endereço certo, mas depois do que aconteceu, tudo mudou, eu mudei.
E agora se eu tiver que tomar alguma atitude contra essa indisciplina do Tenente, seja ela qual for, eu não ligo, e nem me importo se isso vai fazer ele sofrer, ou não.
E o motivo é bem simples, ele já foi devidamente adestrado em nossa Academia Militar de como deve chamar aqueles que não são de ASPEROMARI.
Por isso, caso o Tenente insista em demonstrar ser uma pessoa totalmente contrária às normas de nossa ilha, agirei rápido para encontrar um substituto.
Afinal, não vou levá-lo a um processo administrativo ou a um tribunal de costumes, não perderei meu tempo com isso, é muito mais prático eu mesmo matá-lo e depois alegar que morreu em combate, porque com isso serei poupado de muitos relatórios.
— Sim, Senhor! Traiçoeiros, senhor! — responde o Tenente com olhos arregalados.
— Porta-aviões dos Relaxados fora do alcance da bateria principal, Comandante!
— Um caça bombardeiro acertou a popa, e ela está em chamas agora, equipe de controle de danos entrando em ação, senhor!
— Comandante, o encouraçado Esplêndido informa que foi atingido por mais dois mísseis, e está com dez graus de inclinação e com muita dificuldade para interromper a entrada de água.
— Os cruzadores Almirante, Tridente e Imperador informam que foram atingidos pela segunda vez por caças-bombardeiros, relatam que a equipe de controle de danos está com dificuldade para controlar os incêndios devido aos constantes tiros inimigos, senhor!
— Senhor, o radar captou a presença de mais um Cruzador inimigo, e está vindo para a área de conflito, estimativa de setenta minutos para a sua chegada!
— Comandante! Mensagem de quatro capitães da esquadra pedindo autorização para recuar os navios!
— Pedido negado Tenente, transmita esta informação agora para todos os navios da quinta esquadra! — respondeu o Comandante aos diversos relatos de seus subordinados, na Ponte de Comando, sem piscar, sem se mexer, e sem mudar o ritmo de sua respiração.
— Sim, Comandante!
Então é isso, a nossa inteligência falhou de novo ao nos dizer que conseguiríamos dominar facilmente este quadrante do oceano.
Porque de acordo com eles, as forças inimigas estariam do outro lado de AQUAE, mais especificamente a nordeste do antigo continente, próximo do nosso aliado, a Cidade-Continente de PORTUM, os Burros, mas me parece que desta vez os burros não foram os Portis, mas sim o nosso setor de inteligência.
Muito bem, então!
Ora de mostrar aos Relaxados e aos Traiçoeiros porque há quatorze anos o encouraçado: O Imbatível de ASPEROMARI, é considerado o navio mais letal do oceano.
— Timoneiro, nos leve diretamente em potência máxima até o centro da formação daqueles três Cruzadores inimigos.
— Sim, senhor!
— Comunicação, avise à nossa esquadra para nos seguir em potência máxima, informe ao contratorpedeiro Pequeno Garoto para lançar ao meu comando quatro torpedos em nossa direção, diga-lhes para utilizar a assinatura dos nossos propulsores para travar os torpedos!
— Senhor!?
— Você ouviu Tenente, vamos ser o alvo destes torpedos, e quando eles estiverem perto o suficiente assumiremos remotamente o controle, para em seguida os direcionar para o inimigo, assim eles não vão ter tempo de realizar as suas manobras evasivas.
— Sim senhor, passando a mensagem para Pequeno Garoto.
— Comandante! Capitão Nelson do cruzador Tridente.
— Na mesa holográfica! — disse o comandante Junior Muller, parado com os seus braços para trás.
— Sim, senhor!
◄)) — Comandan... o último bombarde... atingiu a lateral do navio, senhor! Reduzi... a velocidade para 1/3 da potên... máxima para que a equipe de controle de danos possa interromper a entra... de água, senhor!
◄)) — O Tridente já está com cinco graus de inclinação a boreste, se aumen... a velocidade além de não conseguir... fazer os reparos de emergen... também colocará em risc... o meu pessoal da equipe de contr... de danos senhor! Peço autorização para recuar senhor!
— Por que a imagem está falhando tanto, Tenente?
— O Tridente já foi atingido por três bombas senhor, além da entrada de água pela lateral, eles também estão com focos de incêndio em várias partes do navio, inclusive na Ponte de Comando, por isso da oscilação na transmissão holográfica, senhor!
— Estabilize! Não quero que fique alguma dúvida para o comandante Nelson sobre as minhas ordens. — disse Muller, com uma expressão facial neutra e vazia.
— Sim, senhor! Fazendo o possível... senhor!
◄)) — Comandante Nelson, coloque o seu Cruzador em posição na nossa formação, aumente imediatamente a sua velocidade para o máximo e dê cobertura ao Imbatível até que eu afunde os navios dos Relaxados e dos Traiçoeiros.
◄)) — Senhor, mas...
◄)) — Você tem as suas ordens, comandante Nelson, vindas diretamente do Almirante comandante da esquadra, se você não obedecer prontamente, irá responder a um processo na corte marcial por insubordinação, covardia e traição!
◄)) — Está me entendendo, comandante Nelson?
◄)) — Sim, comandante Junior Muller...! Tridente desliga!
...no cruzador Tridente, logo após o término da ligação holográfica.
— Timoneiro, ajuste o curso para dar cobertura ao Imbatível e nos coloque em velocidade máxima!
— Comunicações, avise a equipe de controle de danos sobre a nossa manobra, peça-lhes para fazerem o melhor que puderem e... principalmente para se manterem vivos!
— Sim, Comandante!
— Senhor não podemos fazer isso, o Tridente não vai aguentar, e tem ainda o fato de que estamos levando o nosso pessoal de manutenção para uma morte certa!
— Eu sei Suboficial, mas você também viu e ouviu como eu as ordens vindas diretamente do Almirante.
— Sim, senhor! Não é à toa que ele é chamado de Iceberg, não existe ninguém mais frio do que ele em toda a marinha, ele vai matar a todos nós!
Talvez meu Suboficial tenha razão, talvez hoje seja o dia em que o meu navio, O Tridente, afunde com toda a sua tripulação enquanto obedece às ordens do Almirante.
E com isso, eu não consiga cumprir a minha promessa que fiz à minha pequena Elisabete, a de que voltaria antes de seu aniversário de cinco anos e lhe daria o seu golfinho de pelúcia, minha pequena Elisa, minha força, minha vida, minha vontade de viver.
Mas afinal, onde é que foi parar aquele herói Junior Muller da marinha de ASPEROMARI?
Eu mal consigo reconhecer mais este homem!
Quando servimos juntos no mesmo navio ele era o primeiro a arriscar a sua própria vida para salvar a de seus colegas, mas agora a única coisa que lhe importa é vencer a batalha, é cumprir a missão.
Será que é isso, então?
O comando e o poder mudam as pessoas… corrói… destrói?
— Comunicação, abrir transmissores para a tripulação.
— Transmissores abertos, Comandante!
◄)) — Aqui é o comandante Nelson, recebemos ordens diretas do Almirante para dar cobertura ao Imbatível, sei o que muitos podem estar pensando agora de que este navio não vai aguentar, que não vamos conseguir, mas homens, este navio é o Tridente dos oceanos, já passamos por outras batalhas tão difíceis como esta e conseguimos sobreviver, vocês são a melhor tripulação que um Comandante pode ter a honra de liderar, vocês foram os melhores em seus treinamentos e na ação, e agora é que vamos fazer a diferença, com a disciplina, com a vontade, com espírito dos verdadeiros marinheiros de ASPEROMARI.
◄)) — Vamos cumprir essa missão e sobreviver, vamos voltar para aqueles que nos esperam, façam como foram treinados, deem o seu melhor e sobreviveremos, comandante Nelson desliga!
...no encouraçado O Imbatível.
— Senhor, o Tridente aumentou a sua velocidade e está entrando em formação junto aos demais navios!
Eu até entendo o comandante Nelson, que quer garantir a segurança da sua tripulação não olhando apenas para uma possível vitória na batalha, mas também para o preço a se pagar por ela.
Considerar que os seus comandados além de serem marinheiros também são pais e filhos, irmãos e irmãs, esposo e esposa de muitos que estão em ASPEROMARI.
E que esperam os seus retornos a salvo, pessoas que têm sonhos, esperanças e projetos de vida, eu entendo ele.
Mas ele não me entende, ninguém mais consegue, ele assim como todos os outros não têm a menor ideia do que é não conseguir ter sentimentos, não conseguir sentir mais nada, um vazio completo dentro de si mesmo.
Não ter mais ninguém, não ser mais pai, não ser mais esposo, não ter mais ninguém te esperando, não ter mais sonhos, não ter mais projetos, somente um coração cauterizado incapaz de sentir, incapaz de se importar.
Ser uma pessoa indiferente para a vida e para a morte, eu até gostaria de voltar a sentir alguma coisa e voltar a me importar, mas isso agora é impossível.
O que poderia me fazer isso não existe mais, nada mais existe, e o único fio extremamente fino que ainda me faz saber que estou vivo é a batalha, é a vitória.
— Continue monitorando Tenente, e me informe se tiver alguma alteração dos navios da esquadra!
— Sim, Comandante!
Capítulo 03
Cidade-Continente de VIRIDI
Sofia Rossi
TAGARELA
— …sabe, eu tenho muito orgulho de ter sido designada para o navio almirante Humberto Novais, tenho a certeza de que ele deve ser um dos melhores navios do modelo Cruzador da nossa Marinha. — disse rapidamente uma jovem ruiva sentada no banco de passageiro de um jipe militar.
— Hum, hum! — responde o motorista do jipe.
— Faz tempo que você serve nele? Como é o Capitão? Ele é muito enérgico? Como foi a sua última missão? Vocês estiveram em batalha? A tripulação do cruzador Humberto Novais deve ser excelente, não é?
— Hum, hum!
— Por que não estamos indo para Porto Principal? Este não é o caminho! Espera, já sei, estamos indo para o Porto Secundário do bairro norte! Acertei?
— Hum, hum!
— Qual é o seu nome mesmo? Brincadeiraaaa eu gravei! Arav! Marinheiro Arav Kumar do navio cruzador Humberto Novais! Eu tenho uma memória ótima, e é por causa dela que eu fui uma das melhores da minha turma! A minha formatura da Academia foi no mês passado, foi tão linda! Você lembra da sua? Ou os momentos gloriosos no mar já fizeram você esquecer dela? Eu não vou esquecer a minha tão cedo, mesmo que participe de extraordinárias missões no fabuloso cruzador Humberto Novais!
— Hum, hum!
— Por que você está dirigindo o jipe assim tão rápido? Essas curvas são perigosas! Já sei! Você não vê a hora de voltar ao navio, não é? Você deve amá-lo, navegando com toda a tripulação, em um excelente navio, cumprindo destemidamente as missões da nossa Marinha!
— Hum, hum!
— Você não fala muito, não é? É algum comportamento específico que o Comandante obriga os seus marinheiros a terem? Já até imagino! É para não divulgarem os segredos do cruzador Humberto Novais.
...depois de apenas 45 minutos de trajeto, no Porto secundário do bairro norte da Cidade-Continente de VIRIDI.
— Olha senhor Arav! Estamos chegando! Onde o navio está atracado? Onde ele está? Onde ele está...
Meu Deus da Vida, ela não para de falar nem um minuto, o que está ruiva tem de bonita, também tem de tagarela!
— Chegamos! — disse o motorista, abrindo imediatamente a porta do jipe e saindo no mesmo instante.
— Desça do jipe, marinheira Sofia Rossi, e me acompanhe!
— Sim, senhor marinheiro...! Mas é este aí da... frente... o navio...!? O cruzador... Humberto Novais...!?
— Ele parece um pouco... éééé... gasto, talvezzzz... um pouco... enferrujado!
— Venha, não fique aí parada olhando para o Velho Tio.
— Velho Tio, senhor marinheiro Arav?
— Sim, Sofia!
— É assim que a sua fabulosa tripulação do esplêndido cruzador Humberto Novais o chama!
— Agora por favor se mexa e suba a rampa comigo, o Capitão já está lá na ponta esperando.
— Sim, senhor marinheiro Arav!
Velho tio? Meu Deus da Vida!
Pelo estado dele..., está mais para vovô, ou talvez, velho vovô, não... já sei! Ele está mais para tadinho do vovô!
...a bordo do cruzador Humberto Novais, ou tadinho do vovô, na ponta superior da rampa de acesso.
— Capitão! Trouxe a sua encomenda! — diz o marinheiro sem bater continência.
— Veio rápido Kumar, sentou o pé no jipe, não foi?
— Não via a hora de chegar chefe, a ruivinha aí não calou a boca desde que saímos de lá!
Que tubarão assassino traiçoeiro este marinheiro, já está fazendo intriga entre mim e o Capitão, e logo no meu primeiro dia no navio, safado!
— Marinheira Sofia Rossi se apresentando, senhor!
— Gostaria de dizer que é uma honra estar designada para o cruzador Humberto Novais sob o seu comando senhor. Tenho certeza de que os pequenos detalhes que estão aparentes, e que já pude observar, são apenas estéticos e com certeza causados pelas inúmeras missões de combate que este poderoso Cruzador tem sido participante, sob o seu honrado comando, senhor. — diz a jovem ruiva batendo continência.
— É disso que estou falando chefe, foi assim durante todo o caminho!
— Meu Deus da Vida!
— Kumar, vou recomendar uma medalha para você, porque se depender de alguma missão de combate em que este... como foi que ela chamou mesmo, poderoso Cruzador, não foi?
— Você nunca vai receber, já que não participamos de missões de combate.
— Marinheira Sofia Rossi, eu sou o capitão Mateus Nowak... pode parar de bater continência filha... seja bem-vinda ao Cruzador de batalha Humberto Novais, ou como nós gostamos de chamá-lo, O Velho Tio.
— Você foi designada para este navio para ficar no posto das comunicações em substituição ao marinheiro Kal Johnson, inclusive você pode ficar com a cabine dele, em nosso navio elas são individuais, o tenente Kumar aqui vai te mostrar onde é, afinal ele tem que fazer jus à recomendação de medalha que vou fazer.
— Como eu sei que você acabou de sair da Academia e que este é o seu primeiro dia de serviço em um navio, vou te dar uma colher de chá. Hoje você poderá apenas andar por ele, conhecer o Velho Tio, se enturmar com a tripulação que é ótima, um pouuuuco... talvez... como posso dizer... diferenciada!
— Diferenciada é um bom termo, chefe!
— Obrigado Kumar, mas enfim, eu também acredito que você vai precisar de um tempinho para se alojar na sua cabine.
— Obrigada Capitão, eu irei me alojar rapidamente e antes que o senhor perceba já estarei pronta...
— Pare! Pare! Pare marinheira, faça um favor a nós e a si mesma, controle-se, você entendeu? Controle-se! — disse o Capitão, com uma das mãos levantada em sinal de pare.
Olhei para o meu Tenente, e ele está com a cabeça levemente inclinada para frente, com os olhos fechados e com uma mão esfregando o rosto.
Confesso que a minha tripulação não é nada fácil, e se já não bastasse nós estarmos com o pior navio, mas quero dizer, o pior mesmo de toda a marinha de VIRIDI, ainda tenho os marinheiros mais desajustados, indisciplinados e surtados que existem.
Se não fosse essa escassez de mão de obra da nossa Marinha para tentar se manter em pé nesta guerra de cento e vinte e cinco anos, com certeza nenhum deles seria aprovado na Academia militar, e muito menos estariam em serviço.
— Marinheira Sofia, você vai aprender que aqui as coisas são um pouco maissss... permissivas do que o normal.
— Então, para que você não tenha problemas maiores com a tripulação, por causa desta sua compulsão em não parar de falar, eu já vou até lhe batizar com um apelido, para que você sempre se lembre da necessidade de se controlar.
— A partir de agora você não será mais chamada de marinheira Sofia Rossi, de agora em diante você será chamada de: Tagarela.
— O quê!? Como disse, senhor?
— Tagarela, eu disse marinheira!
Quem ele pensa que é !?
Só porque é o Capitão desta lata velha flutuante ele pensa que pode me humilhar deste jeito!
Que pode colocar um apelido em mim!
Em Sofia Rossi, a melhor de sua turma na Academia e uma das melhores alunas em toda a história da Marinha!
Ele não faz ideia com quem está falando!
Eu sou Sofia Rossi, irmã de Alessia Rossi, a Suboficial do poderoso Porta-Aviões almirante Antônio Gaspi!
E vou mostrar para ele, e vou mostrar agora mesmo com quem é que ele está falando!
Como a minha querida irmã, minha inspiração, que sempre me ensinou que uma marinheira precisa se impor com personalidade já no primeiro momento em que põe os seus pés em um navio, seja diante de um marinheiro ou de um Capitão!
— Tagarela, senhor?
— Isso! — diz o Capitão dando um passo à frente.
— Sim, senhor... Tagarela, então... senhor! — diz Sofia Rossi abaixando o olhar.
Capítulo 04
Cidade-Continente de SCOPULIS
Dong-hae
VIVER DOE
◄)) — ...as notícias são alarmantes, não temos ainda os dados oficiais da Marinha, mas já se fala que pelo menos cinco dos nossos navios de guerra foram afundados em confronto com a Marinha dos FRACOTES.
◄)) — Circulam boatos nos bastidores do centro naval de que pelo menos três Cruzadores foram afundados em confronto com o encouraçado: O Imbatível de Asperomari, que possui como seu capitão o almirante Junior Muller.
◄)) — Esta já pode ser considerada como a maior derrota já sofrida pela nossa Marinha, desde a grande tragédia conhecida em nossa história naval como a batalha do Golpe do Traidor, há vinte anos.
◄)) — Sendo aquele momento o mais devastador que já vivemos, e que muitos ainda choram pelos seus entes queridos que se foram, quando quinze navios de nossa Marinha foram afundados, como consequência de uma espionagem, onde os nossos principais segredos militares foram entregues ao inimigo pelo cientista e empresário traidor da nossa Cidade-Continente, o miserável: Gohan Sato...
— Presta atenção, rapaz!
— Pare de assistir TV e me atenda logo aqui! — diz um homem de barba espessa e mal aparada, sentado em uma mesa do restaurante.
— O Gil! Olha aqui o seu garçom de bobeira, caramba!
— Você paga pra ele nos atender ou pra ficar assistindo?
— Pensei que esta TV fosse para nós, os seus clientes, não para os garçons!
— Me desculpa aí, pessoal! Me desculpa, aí!
— Dong, o que você está fazendo aí parado? — disse um homem alto de pele morena, com uma barriga bastante saliente e uma fisionomia de poucos amigos, se aproximando de um jovem garçom de corpo magrelo.
— Vamos trabalhar! Vamos trabalhar!
— Meus clientes tem razão, não pago você para ficar aí parado assistindo TV, vamos! Vamos! Vamos!
— Desculpa senhor Gil, estou indo! Estou indo! — disse o jovem garçom magro, de pele branca, olhos esticados e cabelos lisos arrepiados, fazendo vários acenos positivos com a sua cabeça de forma rápida e humilde.
— O que desejam, senhores?
— Por favor, façam os seus pedidos!
— O Gil, fala sério, além de ficar aqui esperando todo este tempo, nós ainda vamos ser atendidos por este mané, por este boca aberta aqui?
— Nem consegui ouvir direito o que ele falou, parece que ao invés de falar ele sussurra!
— ESTÁ COM MEDO DO QUÊ, MOLEQUE? — gritou o cliente de barba, enquanto o seu companheiro de aparência semelhante, e que também está sentado à mesa, dá risadas.
— Me desculpa, senhor! Me desculpa! — responde o jovem garçom, envergonhado.
Eu odeio estes caras, toda vez que eles vêm aqui, sempre procuram alguma coisa para reclamar, e me humilhar, e ainda ficam mexendo com a Iully.
Não que ela não saiba se defender, muito pelo contrário, ela sempre soube colocá-los no devido lugar.
Inclusive já até tentou me ensinar alguns truques para lidar com estes babacas, mas eu não tenho a confiança necessária, ela sim tem um espírito forte e decidido.
Com certeza ela sabe se defender muito melhor do que eu. É por isso que além de admirá-la muito por isso, também a considero como a minha melhor amiga, na verdade, ela é a minha única amiga.
O restaurante em que trabalho, e que se chama Mar do Gil, é uma pocilga, um dos piores que existe do lado oeste da ilha.
Eu até já ouvi um marinheiro dizer que ruim igual a este aqui só existe mais um, e que fica no norte da ilha, e o de lá foi apelidado com o nome de: Só para os Valentes.
Com certeza este é um dos motivos da comida e bebida daqui serem tão baratas, e de principalmente fazer com que o Gil permita que estes caras façam o que querem.
Chego a pensar que às vezes eles não escolhem vir até aqui por causa da comida barata, acredito que muitas vezes eles vêm porque podem mexer com as garçonetes e humilhar os garçons, o que é uma espécie de diversão para eles.
A notícia que passou no plantão do telejornal aqui na TV do restaurante me pegou de surpresa, eu fiquei meio que paralisado, ou espantado, sei lá.
Dizem que a coisa mais rápida que existe é um pensamento, e deve ser mesmo, porque em uma fração de segundo tantas memórias voltaram, tantas imagens, tantos pesadelos..., tantas dores, porque já faz muitos anos que eu não ouço esta maldita palavra, este maldito nome... Gohan Sato!
— O Gil, tira este panaca daqui!
— Manda aquela garçonete gatinha que você tem!
— Diz aí Gil, como é que se faz para rolar alguma coisa com a magrelinha lá? — perguntou sorrindo o colega do barba.
— Tudo bem pessoal, vou pedir para Iully atender vocês!
— Dong, chama a Iully lá no salão do fundo, fica lá e vê se não causa mais confusão!
— Vai! Vai! Vai!
— Sim, senhor Gil, estou indo.
Fui para o fundo desta pocilga que é dividida em três partes, a frente dela que dá para a rua é pequena e deve ter uns 3 metros de largura no máximo, com uma porta velha e uma janela pequena ao lado.
A frente é pintada com uma cor vermelha já desgastada e com algumas partes descascando, depois que você entra o que se vê é um corredor comprido com cinco mesas que ficam todas do lado direito, esta é a primeira parte do restaurante, é onde normalmente eu atendo.
Depois da quinta mesa o salão se abre como se fosse um funil, esta é a segunda parte, onde fica a TV, nela tem mais sete mesas espalhadas.
E por último a parte do fundo, que é um retângulo com mais dez mesas, é onde normalmente a Iully fica.
Obedecendo ao Gil humildemente, como sempre, fui para a parte de trás chamá-la, e nem precisarei avisá-la sobre a encrenca que irá enfrentar, e o motivo é bem simples, porque todo mundo viu e ouviu a seção de humilhação gratuita.
— Iully, o Gil pediu para você atender lá na frente no meu lugar.
— Eu já imaginava Gatinho, assim que eu vi o Melabarba logo imaginei, vão judiar do meu Gatinho de novo, e vão querer que eu vá para lá só pra ficarem olhando de perto as minhas pernocas.
— Me desculpe, por minha culpa vai ter que aguentar estes caras.
— Não esquenta não amorzinho, eles não vão tentar nada.
— Com certeza ainda se lembram muito bem o dia que cravei a mão do amiguinho deles na mesa com uma faca, quando ele teve a péssima ideia de pôr ela na minha perna, e ele nem veio mais aqui.
— E sabe mais Gatinho, eu acredito que vai ser ótimo eu ir lá atender eles, vai ser a oportunidade perfeita para dar o troco pela humilhação que fizeram com o meu Gatinho.
— Você sabe como a Iully pensa, esta história de que vingança é um prato que se come frio e pelas beiradas, é papo para os fracos, comigo aqui a coisa toda é resolvida rapidinho, fica só observando, amor.
A Iully é demais, como eu gostaria de ter um pouco desta coragem, desta franqueza, depois de falar comigo ela saiu rebolando, até que um pouco mais do que o de costume, e foi na direção da mesa do cara que me humilhou.
Há algum tempo ela apelidou ele de Melabarba, disse que a barba dele vivia melada, e ela só não sabia do que.
A Iully é uma garota bonita, e apesar de ser apenas um ano mais nova do que eu, parece ser muito mais jovem, ninguém diz que ela já tem vinte e quatro anos.
Ela é magra e tem um corpo bem definido, e sempre deixa as suas pernas à mostra. É claro que ela faz isso porque sabe que elas são bonitas, são compridas e com uma pele branca como o leite.
Como eu disse ela é uma garota bonita, e olha que foge do padrão das modelos da TV, porque não tem os olhos azuis e nem verdes, mas sim grandes e pretos e com um brilho intenso, o que combina com os seus cabelos curtos e bem escuros.
Algumas vezes a gente fica no meu apartamento, se é que dá para chamar aquele lugar disso, ou no dela, que ela costuma chamar de ninhozinho, enfim, às vezes nós ficamos horas conversando para definir se os olhos dela são castanhos escuros ou pretos.
Eu sou péssimo para conversar, porque não consigo ter assuntos e raramente dou risada, e às vezes ela começa essas conversas meio doidas, como a cor dos olhos dela, só para me fazer conversar.
Ela é fantástica e tem uma alma leve, mesmo com as dificuldades da vida, já eu, me arrasto com o peso das minhas lembranças, dos meus pesadelos, das minhas amarguras e da minha dor.
Eu não nasci com tudo isso que me atormenta, mas a vida, ou melhor, uma pessoa, fez com que eu me tornasse um amaldiçoado, e como eu gostaria de poder me vingar dele, mas agora é tarde para fazer isso, é tarde para qualquer coisa, pois o causador da minha dor não existe mais, o que existe é apenas a maldição.
Depois de quinze minutos a Iully já estava carregando a bandeja com o caldo quente de tubarão-martelo. Este é o nome mas na verdade, de tubarão ali não tem nada.
O Gil diz para todo mundo que é uma iguaria do restaurante e que em nenhum outro lugar se encontrará um caldo de tubarão-martelo como o do restaurante do Mar do Gil.
A verdade é uma só, quando você vai a um lugar onde irão permitir que você satisfaça o seu ego humilhando os funcionários de lá, é de se esperar que você também não seja tratado de forma decente, mesmo sendo um cliente.
Quando a Iully se aproximou do Melabarba ela procurou se encostar bem nele, sabia que ele não ia resistir ao desejo de abraçá-la na altura da cintura.
É claro que isso não seria o suficiente para causar algum desequilíbrio e fazer com que ela caísse em seu colo, no entanto, ninguém precisaria saber disso.
Então ela se deixou cair, e o que aconteceu em seguida foi que a tigela de caldo de tubarão-martelo que ela estava segurando virou no peito dele.
Foi um reboliço, afinal, aquele negócio é quente, e para piorar ainda mais para ele, a Iully simulou um maior escândalo se debatendo em seu colo, só para dificultar que ele se mexesse.
No final de alguns minutos se queimando lá, ele acabou conseguindo se levantar. O Gil, vendo tudo aquilo só falou uma coisa para ele:
— A culpa de derramar foi sua barba, vai ter que pagar!
Depois de tudo isso continuei servindo os outros clientes até o fim do meu turno de trabalho, e a minha dívida com a Iully aumentou.
Agora depois de um dia mais agitado que o normal, chegamos noite adentro, e eu já estou do lado de fora do Mar do Gil indo embora, mas paro assim que ouço a sua voz sempre alegre e irradiante.
— Ei! Espera aí Gatinho! Por que tanta pressa?
— O dia foi cheio Iully, não vejo a hora de chegar em casa.
Respondi enquanto começo a andar devagar pela calçada com a cabeça meio inclinada para frente, não porque eu queria andar desse jeito, mas é que às vezes as memórias pesam.
— Ah! É assim, então?
— Eu me esforço para vingar o meu Gatinho e não recebo nenhuma recompensa pela boa ação?
Parei no mesmo instante que senti a mão dela em meu braço, então olhei em seus olhos grandes e brilhantes para agradecer.
Ela tem razão, o fato de eu estar ainda meio atordoado por tudo o que aconteceu, e não estou me referindo à humilhação do Melabarba, mas sim às lembranças daquele maldito nome, não justifica agir assim, e justamente com ela que sempre tenta cuidar de mim.
Eu já havia me acostumado a pensar que toda aquela dor que tive um dia estava sepultada dentro de mim.
Eu pensei que havia sido como um grande incêndio contido, com muito custo, diga-se de passagem, mas que já estava apagado e extinto.
No entanto, ao ver como aquele nome mexeu comigo hoje eu tenho a certeza de que estou enganado, porque o incêndio pode até ter sido contido, mas não foi eliminado por completo, ainda restam algumas brasas dormentes dentro da minha dor.
— Olha Gatinho, eu sei que aqueles caras são um tormento, mas não foi a primeira vez que eles te perturbaram, e além do mais, a Iully aqui deu o que eles mereciam, então não fica assim, não gosto de ver o meu Gatinho, que tem estes olhos esticadinhos que eu tanto gosto, com um ar triste.
— Olha, vamos fazer o seguinte, vamos para o Ninhozinho e eu vou ficar deslizando as minhas mãos entre estes cabelos pretos arrepiados que amo, até você tirar da cabeça o que aconteceu hoje?
— Ah, Iully! Eu não mereço ter tanta atenção sua desse jeito.
— Eu sei Gatinho, você não me merece mesmo, mas sou eu que escolho para quem vou dedicar a minha atenção, então considere-se um sortudo, porque eu escolhi você.
Estamos a uns cinquenta metros da porta do restaurante, e a Iully com todo aquele brilho, toda aquela força, uma pessoa cheia de vida, ainda está cuidando de mim.
Facilmente fui convencido por ela de que ir para o seu apartamento será a melhor coisa a fazer.
Mas antes mesmo de nos virarmos para ir na direção certa, nós vimos um grupo de jovens do outro lado da rua.
Eles estão em cinco, e aparentam ter entre quatorze e dezesseis anos. De início,tenho a impressão de que eles estão brincando, fazendo a maior algazarra, mas estou errado, porque na verdade, eles estão brigando.
Um deles tenta fugir, tenta se desprender dos outros quatro que o agarram, enquanto lhe dão socos e pontapés.
Durante estes poucos segundos que estamos olhando a cena e começando a entender que se trata de uma briga, eu tenho um devaneio e tudo some de repente, é como se eu tivesse sido transportado no tempo e no espaço, e me vejo de volta ao orfanato.
...
— ...pega ele! Pega ele! Pega ele! Pega ele! Dá um soco na cara dele! Chuta ele! Toma isto, seu maldito! Maldito! Maldito! Maldito! Maldito...!
...
— Gatinho! Gatinho! Para! Para Gatinho! Para Dong! Larga ele, Dong-hae! Ele é só uma criança!
— O que? O que? O que eu fiz? O que eu fiz Iully?
Eu perdi o controle e a lucidez, eu literalmente tive um surto.
Quando a Iully conseguiu me trazer de volta através dos gritos, a primeira coisa que vi foi o rosto daquele menino deitado no chão com sangue, e muito sangue.
Mesmo sem ter a menor lembrança do que acabou de acontecer nos últimos três minutos, eu tenho a certeza do que fiz
Eu devo ter atravessado a rua e pegado um dos meninos que estavam tentando bater naquele que se esforçava em escapar.
Devo ter agarrado e derrubado ele no chão para em seguida começar a bater. Eu literalmente devo ter começado a dar uma surra de forma desproporcional nele.
E penso assim porque agora as minhas mãos estão cheias de sangue, e os três amigos dele saíram correndo, porque a imagem de um homem de vinte e cinco anos ensandecido e enlouquecido causou pânico.
Porém, o último dos quatro não conseguiu escapar da minha fúria, da minha loucura, porque consegui derrubá-lo no chão para começar a desfigurar o seu o rosto.
Durante essa rápida, porém intensa cena de horror, eu não me vi na frente do restaurante Mar do Gil, pelo menos a minha consciência não conseguiu, e digo isso porque senti que havia voltado ao orfanato, e que estava sendo surrado novamente.
Fui levado para o orfanato quando tinha seis anos de idade, alguns dias após eu encontrar a minha mãe morta pendurada por um fio dentro do cômodo onde morávamos, ou talvez seja melhor dizer, onde nos escondíamos.
Eu amava minha mãe, ela era amorosa, e se você pensa que o suicídio dela ocorreu por causa de uma fraqueza, eu te afirmo que não foi nada disso, muito pelo contrário, porque ela lutou por nós e foi muito valente todo o tempo.
Mas todo ser humano tem um limite, e naquele dia chuvoso que fui até o Centro de Solidariedade buscar algo para comermos, o que já havia se tornado uma rotina, ao voltar sozinho, porque a minha mãe nunca ia comigo, não porque ela tinha vergonha, nada disso, é que se ela fosse até lá eles não dariam nada, não a ela, porque todos sabiam quem era ela; quando voltei eu a encontrei.
Quando voltei encharcado da chuva para aquele cômodo em que vivíamos no bairro que era o mais afastado do centro da nossa Cidade-Continente, vi a porta apenas encostada, e quando entrei eu a vi pendurada por um fio, ela não aguentou mais e desistiu.
Muitas vezes, praticamente durante o ano inteiro que nos escondemos naquele cômodo, ela me dizia: precisamos aguentar só mais uma semana, precisamos aguentar só mais uma semana, precisamos aguentar só mais uma semana.
Aquela semana acabou para mim e para a minha amada mãe Michele.
Eu fui levado para o orfanato poucos dias depois, o que eu mais me lembro do caminho até lá não são as paisagens, mas sim os olhares.
Olhares daqueles que me levavam, olhares de raiva e de desprezo, e naquele momento eu tinha muita dificuldade de entender tudo aquilo, somente algum tempo depois compreendi por que tinham tanto ódio de mim, e por que tinham tanto ódio da minha amada mãe.
Quando cheguei no orfanato não demorou para que as surras começassem, surras estas que não eram feitas pelos cuidadores do lugar, mas sim pelos próprios meninos órfãos que ali estavam.
Nós éramos separados por faixa de idade, a minha turma era de meninos que tinham entre seis e dez anos, ao todo éramos dez meninos.
No dia seguinte à minha chegada lá no orfanato, um dos Cuidadores reuniu os meninos da minha turma em um canto do pátio, menos eu, que fiquei afastado do grupo.
Eu não conseguia ouvir nada do que eles falavam, mas enquanto o Cuidador falava com os meninos eles olhavam para mim.
No começo com um olhar normal, comum, apenas me dando a entender que estavam falando de mim, mas conforme eles ouviam o Cuidador o olhar deles se transformava, a raiva, o ódio, começava a se apoderar de suas fisionomias de criança.
No dia seguinte foi a minha primeira surra, cinco meninos me bateram no pátio do orfanato e ganhei o meu primeiro olho roxo sem saber reagir, e acho que até hoje não sei, pelo menos, não se eu estiver no controle da minha consciência.
Depois que o meu olho sarou eu levei outra surra, só que desta vez foi durante a noite no quarto. Com o barulho e com os meus gritos e choro, o Cuidador veio até o quarto. Quando entrou, todos os seis meninos pararam de me bater, pelo menos até o momento em que eles ouviram ele dizer:
...
— Tudo bem! Vocês têm mais cinco minutos para dar uma lição nele, mas não deixem ele ficar gritando. Quando eu voltar vocês têm que parar.
...
Cinco minutos podem parecer uma eternidade.
A regra da surra era a seguinte: não podia quebrar nenhum osso, depois da surra tinha que esperar eu sarar dos hematomas para poder dar outra.
Depois da sexta surra eu fugi, escapei daquele mundo de krakens, corri sem saber para onde ia, afinal, eu podia ser reconhecido por qualquer um, até o meu rosto já havia aparecido na TV, e o capuz da blusa de moletom cinza que eu estava usando, e que me ajudou na fuga, talvez não fosse suficiente para me esconder.
Mesmo sendo quem eu era, um amaldiçoado, acabei tendo sorte, porque fui encontrado debaixo de uma ponte pela Ellen, uma senhora que morava na rua.
Ela me ajudou e cuidou de mim, mesmo eu me recusando a falar o meu nome, a falar de onde eu tinha vindo, a falar quem eu era, e principalmente sobre aquela marca em volta do meu pescoço.
Ela me fazia muitas perguntas, mas eu não dava nenhuma resposta, ficando apenas com a cabeça baixa mexendo no pingente de cavalo-marinho que eu ganhei e que estava preso por uma correntinha de ouro, que com certeza era a coisa mais valiosa que tinha comigo naquele momento, não apenas pelo ouro, mas principalmente pela lembrança.
Mas mesmo sem responder nada a Ellen decidiu me ajudar, e foi ela que me deu o nome de Dong-hae.
Eu pensei que ela nunca havia descoberto quem eu era na realidade, qual era a minha maldição, mas anos depois, quando ela já estava no seu leito de morte eu tentei contar.
Entre uma frase e outra de agradecimento eu disse que precisava contar um segredo, que precisava contar qual era o meu verdadeiro nome, qual era a minha maldição, mas para a minha surpresa ela suspirando me disse:
...
— Eu sei, Dong!
— Eu sempre soube, e nunca me importei, meu filho!
...
— Gatinho o que aconteceu? Por quevocê fez isso com ele?
— Ele não passa de uma criança! — diz Iylly, na calçada próximo do restaurante, com olhos surpresos.
— Eu sei Iully! Eu sei! Eu... eu... eu perdi o controle, me desculpe, eu... eu... eu preciso ir. — diz Dong-hae, enquanto olha para as suas mãos que possuem sangue.
— Gatinho, espera! — diz Iully parada na calçada, vendo seu Gatinho andar apressadamente para longe.
— Não Iully! Não! Eu preciso ir.
Virei as costas e saí, na verdade, eu corri.
O menino que eu estava batendo também se levantou e saiu correndo todo cheio de sangue no rosto.
A Iully ficou ali parada me chamando sem entender nada, mas eu não podia mais ir com ela, por mais que ela goste de mim não conseguirá me ajudar, não nesse momento.
E mesmo que ela mereça saber toda a verdade, eu não posso contar qual é a minha maldição, eu não posso contar para ela que a minha dor é ter o nome de MINATO SATO, filho do miserável traidor, GOHAN SATO!
Capítulo 05
Cidade-Continente de FRIGUSAGUA
Aron Noah
4º PODER
— ...eu dou a deixa e você entra, e seja convincente, mostre firmeza, fale para eles uma meia dúzia de dados estáticos, use palavras rebuscadas...
— Sim, Almirante mas...
Mal comecei a falar e apareceu aquela costumeira mão levantada do Almirante em sinal de pare, que continua a falar como se nem precisasse respirar, mas isso não será uma derrota definitiva para mim, porque preciso dizer o que quero antes que passemos por aquela porta.
— ...assim as pessoas vão ter que gastar algum tempo para tentar entender o que está sendo dito, e você ainda vai dar aquele ar de profissionalismo, não que você não seja, muito pelo contrário...
— Sim, Almirante mas... — tenta dizer novamente Aron Noah, parando diante da mão levantada do Almirante.
— ...mas a ideia é o seguinte Aron, temos que mostrar que estamos no controle da situação, que tudo foi planejado, e que tudo está correndo conforme o plano, vamos dizer que a operação possuía riscos demasiados e... que alertamos os nossos aliados...
— Almirante, por favor, me escute...
E lá está a mão dele levantada novamente, eu vou ser sincero com você, estou começando a pegar uma certa implicância com ela.
— ...mas fomos votos vencidos, mas isso não significa que mandaríamos o nosso pessoal para uma operação de morte certa.
— Almirante, eu entendi tudo perfeitamente...
Eu tinha certeza de que em algum momento ele teria que fazer uma pausa para respirar, e foi o que aconteceu, e eu não perdi a oportunidade.
— ...mas eu acredito que o senhor como Comandante do Serviço de Inteligência Naval, — começa a dizer Aron, enquanto anda pelo imenso corredor — é a pessoa mais indicada para falar com todos estes repórteres, eu sou apenas um Tenente da inteligência, a sua figura irá trazer muito mais credibilidade para falar da derrota dos nossos aliados...
— Pare Aron! Pare! Você não está entendendo nada do que eu estou falando...
Eureka! Finalmente, ele chegou a uma conclusão lógica!
Com certeza não estou entendendo nada, e justamente por isso que estou tentando falar com elehá quase vinte minutos, enquanto andamos rápido por diversos corredores do centro naval, que é melhor ele fazer a coletiva de imprensa, onde já estão oito repórteres esperando.
A Inteligência Naval criou há algum tempo atrás uma agenda ordinária de coletiva de imprensa, e digo ordinária no sentido de periódico, se bem que no outro sentido também serve.
Enfim, apesar dessa coletiva de imprensa ser no setor de Inteligência Naval, o que também na minha opinião não parece ser muito inteligente, o Almirante responsável da área não tem escolha, ele é obrigado a permitir a entrevista.
E o motivo para isso é simples: o principal grupo de multimídia que existe na ilha, chamado de grupo VPI, que inclui a maior emissora de TV, que possui uma audiência média de 60% dos telespectadores conectados, e que possui ainda o maior jornal, impresso e digital, a maior revista, e como cereja do bolo a maior rádio da Cidade-Continente, obrigou a Marinha a instituir essa rotina.
O VPI é disparado o grupo que possui o maior público, leitores, telespectadores e ouvintes, ou seja, eles são uma potência na multimídia.
Com isso eles conseguiram obrigar a contragosto do Almirante, diga-se de passagem, a criação desta rotina de coletiva de imprensa, ou talvez eu deva dizer: desta rotina de massacre de perguntas.
— Aron, presta atenção, você é um dos meus melhores oficiais da inteligência, e a você já foram confiados vários segredos da nossa Cidade-Continente, então vou direto ao assunto e você deve guardar isso como se fosse de nível 4.
— Não tem nada a ver com credibilidade, patente ou a merda que for, a questão é a seguinte: nós temos oito repórteres naquela sala, quatro deles fazem parte do grupo VPI, que você sabe muito bem que tem como presidente e proprietária a senhorita Issys Hadassa, e que na minha opinião deveria ser chamada de Issys desgraça.
— Mas enfim, essa menina tem como único, grande e principal objetivo de vida, desmoralizar a Marinha e perverter a população contra os nossos gastos na área militar, colocando assim a opinião pública contra o esforço de guerra.
— Para mim, está claro que na cabeça dela essa guerra é somente dos militares, e não de toda a população.
— Caramba Aron! Parece que esta menina não entende que em uma guerra tem que haver o sacrifício de todos, sejam eles civis ou militares.
— E te digo mais Aron, esta menina trabalha tanto contra nós que eu até poderia facilmente dizer que ela está a serviço da coalizão inimiga...
— Almirante, a senhorita Issys jamais...
— Eu sei, eu sei, — interrompe o Almirante com a mão levantada — que ela não está a serviço do inimigo, afinal de contas ela é a filha do nosso Grégio Daniel Hadassa, e em um futuro, o qual eu espero sinceramente que seja um futuro bem, mas bem distante mesmo, ela herdará o posto de Grégio de FRIGUSAGUA.
— E será nessa hora Tenente, que eu quero ver o que vai acontecer com a gente, porque com a mentalidade dela por certo vamos ser invadidos e derrotados.
— Almirante, eu sei que a senhorita Issys não tem sido fácil com a Marinha, e principalmente com o setor de inteligência, mas eu quero voltar ao foco principal da nossa conversa, e desta nossa correria por estes corredores, estou me referindo ao fato do senhor querer que eu vá até a coletiva de imprensa falar sobre a derrota de nossos aliados na última batalha.
— Você não escutou nada do que disse, não é, Tenente?
— Caramba! A imprensa desta Cidade-Continente é liderada pelo grupo VPI, que vai nos trucidar. Eles já fazem isso sem ter muita razão e nem muito material.
— Agora imagine você com os dados desta última situação, onde dez navios de guerra dos nossos aliados de SCOPULIS e VIRIDI foram afundados depois da batalha com a marinha de ASPEROMARI, e que para variar já conseguiram até a informação de que aquele navio desgraçado, O Imbatível de ASPEROMARI, sob o comando do Muller, afundou sozinho três cruzadores dos Relaxados...
— Sim, Almirante mas...
— Mas o caramba Aron, vão colocar a culpa em nós, porque fomos nós da inteligência de FRIGUSAQUA que demos a informação para os Fracotes que naquelas coordenadas do oceano havia pouquíssima movimentação de forças inimigas.
— E para piorar, fomos nós que informamos à nossa própria Marinha que não precisavam enviar nenhuma esquadra, porque os nossos aliados dariam conta.
— Se nós estivéssemos lá, aquela derrota não teria acontecido, e o Muller não ganharia mais alguns pontos em sua fama de mito dos oceanos. Você não imagina o que é que eu já tive que ouvir no centro de comando da base, e como tive que me virar para explicar o inexplicável.
— E agora o senhor quer que eu faça o mesmo na coletiva de imprensa, Almirante, explicar o inexplicável!
Agora ficou tudo claro para mim, eu não estou indo para uma coletiva de imprensa, estou indo para um circo, e adivinha quem vai ser o palhaço.
— Caramba Aron! Não se faça de desentendido, será que eu vou ter que bater a sua cabeça na parede ou te jogar no mar para entender?
— Não estou te jogando em um cardume de tubarões, eu estou usando estratégia, merda!
Na minha opinião a última frase do Almirante ficaria muito melhor se ele tivesse dito: usando uma merda de estratégia.
— Presta atenção Aron, se a senhorita Issys der apenas uma única e pequena determinação ao pessoal dela a nosso favor, eles vão aliviar, você está entendendo?
— Ir com as perguntas mais para o lado de... como é essencial que a nossa Marinha esteja presente nas missões para que os nossos aliados não falhem, você está entendendo?
Claro que sim, quem não reconhece um sabonete quando o vê — pensa Aron Noah, andando apressadamente ao lado do Almirante em um interminável corredor.
— O que nós precisamos não é de patentes militares, não é de um Almirante com medalhas de herói no peito na frente dos repórteres, o que nós precisamos agora é que você use a sua influência com a senhorita Issys para ela nos dar esta... ajudinha, por assim dizer... em prol da estabilização social é claro.
— Senhor, eu e a Issys, quero dizer: eu e a senhorita Issys…
— Pare, Aron! — diz o Almirante com a mão levantada.
— Não fica aí todo melindrado, não!
— Eu sei que você tem um caso com ela, e que ela gosta de você, só não sei como é que você faz isso rapaz, como consegue sempre ficar com as mulheres mais bonitas da ilha!
— E no caso dessa menina, além de ser uma bela morena, ainda é rica e futura Grégia da nossa Cidade-Continente, o que me preocupa é claro, como eu já te falei, na minha opinião ela é um perigo para o nosso futuro.
— Almirante, não é bem assim, eu e a Issys..., quero dizer, eu e a senhorita Issys...
— Espere Aron, deixa eu esclarecer algumas coisas para você, eu não estaria aqui te pedindo para usar o seu relacionamento pessoal, ou o seu charme, vamos assim dizer, se tivesse outra alternativa.
— Se aqui em nossa ilha a relação entre o governo e a imprensa fosse igual à das outras quatro Cidade-Continentes, eu não precisaria usar esta estratégia com você rapaz, lá nas outras ilhas é tudo muito mais simples.
— O poder executivo pede para a imprensa ser um pouco amiga deles com as matérias, e em troca ele, o governo, acaba também sendoooo... amigo da imprensa na hora de comprar espaço publicitário nos meios de comunicação, assim fica todo mundo feliz, a sociedade pacificada, e todo mundo concentrado no esforço de guerra.
— Mas aqui Aron, a coisa é diferente, esta menina, filha do nosso Grégio, e que é a dona e presidente do maior grupo jornalístico, fica pegando no nosso pé.
— Sempre tem um jornalista dela bisbilhotando os gastos da nossa Marinha e os contratos, sempre comparando com os investimentos feitos na área da educação, da saúde, enfim, fica enchendo o saco e fazendo tudo isso com aquele discursinho de liberdade de imprensa.
— Aron, nós estamos com o motor do nosso navio a 1/3 e vamos ficar à deriva se continuarmos desse jeito, e o pior ainda é que não podemos contar com o nosso Grégio para controlar a filha dele.
— Desde que a sua esposa morreu por causa daquele surto de meningite, ele idolatra a filha, não consegue repreendê-la, nem tão pouco controlá-la.
— Ele não consegue ver que os sentimentos pessoais devem ficar abaixo das suas obrigações como Grégio, e uma das principais sem dúvida é a de pacificar a sociedade.
— Almirante, é importante que agora o senhor me ouça, eu e a Issys...
— Pare, Aron! Pare! Falando no Kraken, olha ela aí chegando!
O LOIRINHO DA INTELIGÊNCIA
— Senhorita Issys Hadassa, é um imenso prazer vê-la novamente. — diz o Almirante com um largo sorriso, próximo da porta de entrada da sala onde irá ocorrer a coletiva de imprensa.
— E como sempre muito exuberante, fico feliz que a senhorita tenha marcado esta coletiva de imprensa fora da data pré-estabelecida em nossa agenda, é uma grande oportunidade para nós da inteligência naval poder esclarecer para a sociedade como os nossos aliados se precipitaram.
— Inclusive trouxe aqui o meu melhor oficial da inteligência, que talvez a senhorita o conheça, é o Tenente Aron Noah, e que irá explicar com os seus precisos dados estatísticos tudo o que aconteceu.
— Como a senhorita é uma mulher inteligente, sabe como funciona esta coalizão que FRIGUSAGUA tem com VIRIDI e SCOPULIS, se a nossa Marinha não estiver presente nas ações militares da coalização, eles não conseguem cumpri-la corretamente.
— Almirante — começa a responder Issys Hadassa ao se aproximar deles — devo-lhe dizer que após ouvir todas estas belas palavras rebuscadas do senhor, só consigo pensar em duas coisas para te dizer, e a primeira é:
— ME MIRA, MAS ME ERRA, ALMIRANTE, — grita ela no corredor — você deve realmente pensar que sou uma idiota para vir com esta conversinha mole, porque ambos sabemos que o senhor só está nesta coletiva de imprensa porque é obrigado, porque se não, nós nunca ficaríamos sabendo como vocês gastam o dinheiro dos cidadãos.
— E essa coletiva de imprensa vai ser uma ótima oportunidade mesmo, mas não para você, ou para o seu Tenente, explicar como a nossa Marinha é importante na coalização, mas sim explicar por que não estávamos presentes naquela batalha.
— Afinal, somos a Cidade-Continente que tem o maior número de navios de guerra de todo o planeta, e que conseguimos com o sacrifício orçamentário das áreas da saúde, educação, habitação e transporte de FRIGUSAGUA.
— Então, já que não conseguimos impedir a influência da Marinha junto ao Senado na aprovação destes últimos orçamentos, que sacrificaram a qualidade de vida da nossa sociedade, vocês vão ter que explicar por que os nossos navios não estavam ajudando os nossos aliados, e isso principalmente considerando o fato de ter sido vocês que passaram a informação de que seria uma moleza aquela batalha, como pescar em um aquário.
— Senhorita Issys, isso não está correto... — diz ele com a mão levantada, mas é obrigado a interromper a fala.
— Veio diretamente de uma fonte muito confiável Almirante, então o senhor vai ter que caprichar muito em suas explicações para nos convencer.
— E agora, em segundo lugar, quanto à participação do seu estimado tenente Aron Noah, posso dizer que será a cereja do bolo...
Enquanto a Issys fala, eu posso te afirmar que realmente me sinto como a cereja do bolo, sabe, aquela primeira a ser mastigada.
— ...porque eu até nem iria ficar aqui para ouvir as suas desculpas Almirante, que são muito ruins, diga-se de passagem, mas agora, encontrei uma motivação para ficar, inclusive vou fazer algumas perguntas, só para ver se aqui com todos estes jornalistas, o maravilhoso tenente Aron consegue falar com a mesma cara de pau, com o mesmo cinismo, com a mesma sem-vergonhice...
Eu não sei o que é pior, ouvir a Issys ou ver a expressão de espanto do Almirante, que está ficando bem pálido a propósito.
— ...com a mesma imoralidade, com a mesma indecência, com a qual ele falava comigo, antes de eu descobrir que ele estava me traindo com a Mikaela, enquanto namorávamos, porque eu não era o suficiente para o loirinho da inteligência naval Almirante...
Pensei em aplicar a mesma tática que usei com o Almirante, esperar ela respirar, afinal, ela terá que fazer isso em algum momento, então aproveitarei para tentar pela décima vez, não, corrigindo, pela décima quinta vez, explicar que eu nunca a traí.