Por que escrevi esse livro?
Por que escrevi esse livro?
Existem livros que o autor escreve e sente que fez o que tinha que fazer. Existem outros que ficam andando com ele por um tempo, aparecendo nos seus pensamentos em momentos inesperados, como quando está no trânsito ou tentando dormir. O Contato é esse tipo de livro para mim.
Não porque seja perfeito. Mas porque é honesto de um jeito que eu precisava que fosse.
Havia um desafio — um desafio necessário — o de escolher como herói um homem que o mundo inteiro descartou. Um jovem que dormia em cima da carteira da escola, que quebrou um dente na queda, que foi chamado de lerdo durante anos, que tomava cinco remédios por dia para silenciar aquilo que a medicina não conseguia explicar. Enfim, não queria construir um herói que o mercado espera encontrar numa ficção científica.
E foi exatamente por isso que Maicol Mopero nasceu. Porque a maioria de nós não se parece com um super-soldado. A maioria de nós se parece muito mais com alguém que já foi chamado de alguma coisa que doeu.
O que quis fazer, com delicadeza e sem pressa, foi mostrar que os dons que o mundo rejeita são muitas vezes os únicos capazes de salvar esse mesmo mundo. E isso não é só uma ideia de ficção científica. É uma ideia sobre a vida.
As batalhas são intensas, as naves caem, vitórias são alcançadas — mas o que eu quis que ficasse na memória não é nada disso. O que espero que o leitor carregue é a Eleusa escolhendo morrer no escuro para que um estranho pudesse correr. É o Sandro caindo no campo depois de anos salvando vidas. É a Yasmin girando e caindo como um pássaro e o Maicol gritando o nome dela sabendo que não adiantava mais. Os filhos crescendo e pegando em armas enquanto o pai ainda está se recuperando numa cama de hospital.
Quis tratar a perda com respeito. Não economizei na dor, mas também não a usei como espetáculo. Cada morte pesa porque cada personagem foi construído com cuidado, com histórias próprias, com razões para continuar vivendo — e é justamente isso que torna a sua ausência tão real.
Não quis que o leitor sentisse apenas vitória ou derrota. Quis que sentisse algo mais difícil de nomear. O alívio de quem sobreviveu sabendo o que custou. A gratidão misturada com culpa. O reconhecimento de que a humanidade, quando encurralada, encontrou dentro de si mesma algo que havia esquecido — e que agora precisa, a todo custo, não deixar se perder de novo
O Contato é o primeiro livro de uma história contada em três. Cada um tem o seu próprio caminho, com personagens que se repetem — e novos que surpreendem — com as suas próprias perdas. Mas existe uma única trama correndo por baixo de tudo — silenciosa, invisível, como costumam ser as guerras que realmente importam.
Ela só se tornará completamente visível no último capítulo do livro III. E quando isso acontecer, o leitor vai entender que a batalha contra os alienígenas nunca foi a guerra principal. Que independentemente de vermos ou não, estamos todos dentro de um conflito que vai muito além do que conseguimos enxergar.
É isso que espero que “O Contato” deixe em quem o lê. Não uma resposta. Uma pergunta que não te larga. De que no final, o que nos salva talvez seja algo que ainda não aprendemos a nomear — se é que vamos enxergar — e que reflete na nossa teimosia de sermos… humanos.
R. Peroma
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