Degustação
D.O. - Dimensão Oculta
Nunca Desistir!
Nunca Desistir!
Este é o capítulo 01.
No capítulo 02 vemos como Luna chegou até aqui, para então continuarmos a partir desse ponto.
Capítulo 01
“— Eu já disse, não estou com medo. ”
— Você está muito quieta hoje — pergunta Mauro, dirigindo pela Avenida Albino de Oliveira, passando em frente a um McDonald's, o que fez Luna torcer o pescoço para ficar olhando para ele — está com medo?
— Medo? Não! Estou apenas fazendo uma revisão de alguns pontos.
— Note bem Luna, ter medo na primeira vez é normal, ainda mais pra o que você está prestes a fazer.
— Eu já disse, não estou com medo.
— Você sabe que pode se abrir comigo, não é?
— Você pode confiar em mim!
— Eu confio, só estou pensando, não quero errar e nem falhar, é só isso. — diz Luna, abaixando a cabeça e estreitando sutilmente os olhos, enquanto acaricia um diário que está segurando.
— Gosto desse seu pensamento.
— Note bem, a concentração e a disciplina sempre foram fundamentais para mim em tudo o que fiz até hoje, principalmente na D.O., talvez seja por isso que eu seja o último remanescente da equipe original.
— Mas felizmente agora a equipe está se formando novamente, e você é a minha parceira, formamos uma grande dupla.
O Mauro vem dirigindo na sua costumeira velocidade, e por isso já estamos perto do nosso destino.
Acabamos de sair da Avenida Albino de Oliveira, onde tem aquele McDonald's que virou a minha parada obrigatória na volta.
E para variar, ele sempre me diz que não sabe como é que eu consigo comer tanto daquele lanche, que, na opinião dele só faz mal à saúde.
Mas é que ele viveu até hoje em um mundo muito diferente do meu, em uma classe social que não tem nada a ver com aquela que eu tinha há pouco mais de um ano.
Se o Mauro tivesse passado toda a sua infância e adolescência sem nunca entrar em um destes fast-foods, ele saberia porque como tanto disso agora.
O caminho ao todo não é longo, do meu apartamento que fica na Avenida Modesto Fernandes até onde vamos demora no máximo quinze minutos de carro, e isso se pegarmos trânsito.
Em um certo trecho da Albino ela muda de nome, passa a se chamar Estrada da Rhodia, e esse é o meu trecho favorito, porque gosto de ficar olhando para esta enorme parede verde feita de bambus.
É uma paisagem muito diferente daquela que eu sempre via na minha comunidade de Paraisópolis, lá em São Paulo, onde morava há um ano antes de vir para Campinas.
Enquanto estou em silêncio olhando pela janela do carro para a parede de bambu, também fico acariciando o diário que está no meu colo.
Eu sei que no mundo de hoje ninguém mais usa um diário, e se usa, não será em papel como o meu, mas é que na verdade, ele não é um diário, ele é um amigo, um conselheiro para todos os momentos da minha vida.
Apesar de chamá-lo de diário, na verdade eu não escrevo nada nele, e isso porque já estão nele as palavras que preciso ler, e algumas delas eu até já ouvi da sua antiga dona, a minha falecida avó.
Quando ela me deu o seu inseparável diário naquele dia no hospital, na véspera de sua morte, eu até pensei que iria guardá-lo como uma relíquia, como uma lembrança da única pessoa que verdadeiramente me amou, pensei que iria deixá-lo em uma gaveta, ou em uma caixa de sapato.
Mas não foi isso que aconteceu, em um daqueles momentos de grande mágoa e tristeza, em que costumeiramente fico devido à minha família, foi nele que encontrei consolo.
Foi como se a minha própria avó estivesse aqui com o seu olhar terno, com o seu jeito sereno, com a sua voz tranquila, e principalmente com o seu imenso amor, falando comigo.
Lendo as suas memórias, neste caderno que já tem as folhas meio amareladas, encontrei conforto, encontrei carinho e forças para seguir em frente, para continuar tentando viver.
Foi no trecho: Luna-ago/20-03, que eu encontrei novamente ajuda.
Uma mania um tanto estranha, mas até que divertida da Vó Doroteia em organizar todas as suas anotações, indicando um tema, seguido do mês e ano da anotação, e também o número da linha, talvez tão sistemática como amorosa.
Mas foi nesta anotação que encontrei uma frase que ela mesma me disse há muito tempo atrás, enquanto tentava me consolar no meu quarto, há doze anos.
Era a minha festa de aniversário de oito anos, e na hora em que todos estavam cantando os parabéns, para depois eu apagar as velinhas do bolo que a minha avó tinha feito para mim, o meu pai no meio de todo mundo começou a gritar alto o meu apelido enquanto batia palmas.
Começou a gritar enrolando toda a sua língua, porque para variar ele estava chapado de cachaça novamente, mas todos conseguiam entender este maldito apelido que ele mesmo colocou em mim quando eu nasci, quando também estava bêbado, então, na festa ele começou a gritar:
— Malhadinha! Malhadinha! Malhadinha! Malhadinha!
As pessoas começaram a rir, os meninos e as meninas da minha rua que estavam na festa começaram a se contorcer de tanto que riam, ao mesmo tempo que gritavam o apelido que meu pai havia me dado.
Enquanto eu tentava segurar o choro, também colocava a minha mão sobre o lado esquerdo do meu corpo, como se fosse possível esconder o que estava debaixo da minha blusa, como se fosse possível apagar as manchas do meu vitiligo que cobrem todo o meu lado esquerdo, do meio da coxa até o ombro.
Mesmo eu ainda tendo a sorte de não ter estas manchas esbranquiçadas nas mãos, ou até mesmo no rosto como muitas outras pessoas possuem, eu não aguentei, deixei o bolo, deixei todo mundo, e saí correndo chorando para o meu quarto, que dividia com o meu irmão.
E foi nesta hora que a Vó Doroteia veio até mim, na verdade, ela foi a única que se importou em me procurar.
Meu pai continuou bêbado e gritando meu apelido, meu irmão já havia sumido na rua, minha mãe, bem, minha mãe fez o que ela sempre faz, ou seja, nada, ficou apenas indo de um lado para o outro, fazendo eu sei lá o que, sem falar nada e com a única fisionomia que ela tem, a de tristeza.
Já deitada na cama e chorando debaixo da coberta eu consegui sentir a mão da minha avó fazendo carinho, e enquanto ela novamente me dava amor com os seus gestos, também fazia o mesmo com as suas palavras.
...
— Luna, minha querida, não chore! — diz Vó Doroteia, deslizando a sua mão sobre aquele pequeno corpo escondido debaixo do cobertor.
(choro intenso de criança)
— Eu sei que é difícil, acredite, meu amor!
— Olha! Quando eu era pequena, um pouco mais jovem do que você, as crianças da minha idade também vieram me perturbar por causa do meu nome, afinal Doroteia não é uma belezura de nome, você sabe disso.
— Mas ao invés de continuar chorando, porque assim como você eu também chorei, eu comecei a procurar uma forma de me defender daquilo, mas é claro que sem briga, porque eu apanharia deles com certeza.
(choro intenso de criança)
— Foi aí então que fui atrás do significado do meu nome, eu pensei, se ele tiver um significado bonito, talvez consiga fazer com que eles parem de tirar sarro de mim.
(choro de criança)
— E foi exatamente isso que aconteceu, minha querida.
— Quando descobri que Doroteia era um nome de origem grega e que significava presente de Deus, ou dádiva divina, na primeira oportunidade que tive, no mesmo momento que alguns vieram tirar sarro de mim, eu perguntei se eles sabiam o significado do nome deles, e falei mais: — Se é que os nomes de vocês têm algum significado, porque o meu está relacionado a Deus todo-poderoso, eu sou uma dádiva de Deus, e os nomes de vocês, é o quê?
— O que aconteceu vó? — pergunta Luna, abaixando o cobertor até a altura de seu nariz.
— Ah! Meu amor, ninguém sabia o significado dos próprios nomes, então cada um foi perguntar para os pais, alguns até ficaram sabendo qual era, outros não, talvez alguns nem possuíam significado, mas o importante era que eles pararam de me perturbar, principalmente os que não sabiam o significado do seu próprio nome, e aqueles que sabiam, a maioria não gostou muito.
— Mas vó, o problema não é o meu nome, eu não acho Luísa Helena feio, o problema é este apelido que o meu pai me deu, e tudo por causa destas manchas. — diz Luna com o rosto totalmente descoberto e que mostra o caminho das lágrimas em seu rosto.
— Olha Luna, seu pai é uma pessoa com problemas, eu sei que ele não demonstra afeto com você, e que na maioria das vezes está daquele jeito, mas no fundo existe amor dentro dele, ele é seu pai e não faz por mal.
— Mas vó, como é que eu faço para eles pararem com isso?
— Olha meu amor, eu sei que agora parece difícil, mas você vai precisar aceitar essas manchas, elas fazem parte de você.
— Aceitar!? Mas como, vó? — diz Luna, colocando a sua mão sobre o lado esquerdo de seu corpo, ainda debaixo da coberta.
— Sendo quem você está predestinada a ser, meu amor, você é muito mais do que pensa, e toda esta dor, esta dificuldade, não vão te destruir, vão te fortalecer para você poder vencer, para ser a minha Luna vencedora e amada.
...
E foram justamente essas palavras que ela me disse, e que ficaram registradas em seu diário, que me confortaram muitos anos depois.
Palavras que vieram a me ajudar e fizeram com que eu me lembrasse de todo o seu carinho e todo o seu amor, me dando forças para enxugar as minhas lágrimas e diminuir a raiva e a tristeza que vim a sentir do meu irmão, no dia seguinte ao falecimento da minha avó.
Luna - ago/20-03
“Hoje foi o aniversário da minha amada neta Luna, a minha preciosidade, hoje foi mais um dia de sofrimento para ela, mas eu sinto que ela está predestinada a grandes coisas, não sei se isso é coisa de vó, ou coisa de Deus, mas o que eu sei é que ela é muito mais do que pensa, e sua dor e dificuldade não vão destruí-la, vão fortalecê-la para poder vencer, para ela ser a minha Luna vencedora e amada”.
A minha família é pobre, muito pobre, estamos bem abaixo da média das famílias da comunidade, então você já imagina, quando a minha avó faleceu, há dois anos, nós não tínhamos dinheiro para fazer o enterro.
Porém, como trabalho desde os meus 10 anos e a Vó Doroteia sempre me incentivou a guardar um dinheiro no banco, em uma conta poupança que ela mesma abriu para mim, eu tinha uns trocados lá que seriam o suficiente para fazer o velório e o enterro dela.
Mas quando fui ver a conta poupança ela estava zerada, aí você já sabe, bateu o desespero, fui até a agência saber o que tinha acontecido, e lá estava marcado que o dinheiro havia sido sacado no caixa eletrônico com o cartão e a senha.
Nem falei mais nada com o moço do banco, eu já sabia o que havia acontecido, porque na semana anterior o meu cartão ficou desaparecido por dois dias, até que voltou a aparecer do nada, em cima da TV, justamente no mesmo dia em que meu irmão sumiu novamente, sendo encontrado pelo meu tio lá na cracolândia, no dia da morte da minha avó.
Ele sabia que a vó Doroteia estava doente, como pode fazer isso?
Essa já era a terceira vez que ele me roubava, a primeira vez foi o dinheiro dentro da minha bolsa, a segunda foi uma correntinha de ouro que eu tinha ganhado de presente da minha vó.
Resumindo, nós não conseguimos pagar o enterro dela, o pouco dinheiro que o meu pai tinha foi gastar lá no bar, minha mãe até chorou, afinal era a mãe dela, tinha que demonstrar algum sentimento, pelo menos naquele momento, meu irmão, bem, meu tio ficou com ele.
A gente até procurou o CRAS, que é o serviço social da prefeitura, mas não deu em nada, a Vó Doroteia não pode ser velada sem o pagamento do serviço, e seu sepultamento foi feito pela prefeitura em um programa municipal de mutirão de enterro.
Eu não consegui estar ao lado do caixão dela para me despedir, mas acredito que tenha sido melhor desta forma, porque assim fica a recordação dos nossos últimos momentos, fica a recordação do dia que ela me deu este livro, ou melhor dizendo, este diário, que me aconselha, que me acalma, e traz a certeza de que devo continuar em frente.
Ainda mais agora, que já estou chegando na estação de pesquisa do SIRIUS para entrar na cabine de transferência, que está interligada ao Acelerador de Partículas, para que assim, junto com o meu parceiro e mentor Mauro, possamos fazer a minha primeira Caminhada na DO, na Dimensão Oculta, que até há um ano nem imaginava que existia.
Na verdade, eu não sabia nada de um aparelho que acelera um elétron a quase a velocidade da luz, ou sobre a luz Sincrotron, e tudo isso existindo perto da minha cidade, afinal, Campinas fica só a 100 km de São Paulo.
— Chegamos Luna — diz Mauro, olhando para Luna com um leve sorriso de lábios fechados — tem certeza de que está tudo bem para o grande dia?
— Está Mauro! Está tudo bem! Eu estou pronta para a minha primeira Caminhada, eu estou pronta para mandar a minha consciência para uma outra dimensão.
CENAS PÓS-CRÉDITO
...Luna andando na Rua Vinte e Cinco de Março, na cidade de São Paulo, um ano antes da primeira Caminhada na DO.
— E aí Luna! Beleza!
— E aí Maluco! — responde Luna do outro lado da rua, abrindo um sorriso.
— Pô, já faz uma cara que a gente não se vê! Como é que estão as coisas? Tudo firmeza? — pergunta Maluco, andando em direção a Luna, balançando os seus cabelos rastafári.
— Que nada!
— O que tá pegando?
— O trampo na Biju já era.
— Sério, deu zica lá na loja então?
— Deu, eles disseram que eu não me arrumava direito e que isso não era bom para os clientes.
— Tá me tirando! Eles falaram isso!? — disse Maluco, fechando um pouco os olhos e franzindo a sua sobrancelha enquanto balança a cabeça.
— A chefe lá falou, principalmente sobre o meu cabelo.
— Tá me zuando! O seu cabelo nem é tão ruim assim, ele é meio crespo e tal, mas se passar um creminho aí até que fica da hora.
— Eu gasto maior grana com ele Maluco, só que não dá para comprar os produtos top, e salão nem pensar com o meu salário, então eu faço algumas coisas caseiras que mita na internet, mas mesmo assim a chefe disse que não tá legal.
— Pô! Que chato Luna! Mas ó, fica de boa, você sendo como é logo consegue arrumar um trampo.
— Tomara Maluco, porque a coisa lá em casa tá osso, o meu irmão não ajuda em nada, a minha mãe é diarista, então você já sabe como é, o meu pai eu nem sei quanto ele ganha, mas é certeza que ele deixa metade do salário lá no bar do cachorro.
— Aí Luna, é isso que eu admiro em você, mesmo tendo uma família assim toda zuada, você ainda é assim, de boa. — disse Maluco balançando os braços.
— Valeu Maluco, mas deixa eu fazer a minha correria, porque eu preciso urgente de um trampo.
— Aí! Dá uma passada lá na loja do Marcão, você tá ligada que com a ampliação da feirinha da madrugada ele acabou abrindo mais uma loja lá, então ele tá precisando de mais gente com ele.
— Sério? Eu não sabia! Se bem que o Marcão é embaçado!
— Aí, você tá falando isso por causa do seu apelido? — disse Maluco, apertando em seguida os lábios e com um leve olhar triste.
— É por isso mesmo, — disse Luna desviando o seu olhar e com semblante envergonhado — ele não me deixava em paz.
— Aí, eu só te dei esta letra porque você disse que a coisa está feia lá na sua goma, mas é você que tem que ver se vai aguentar o Marcão ou se vai continuar na correria.
— Eu sei Maluco! Eu sei! Você só está querendo ajudar, você é firmeza mesmo. — diz Luna, voltando a olhar para Maluco e com um leve sorriso.
— Beleza então, mas agora eu preciso ir, vou resolver uns B.O. aí, mas foi legal te ver.
— Valeu Maluco, também vou na minha correria. Partiu! 1 diz Luna balançando o braço.
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