Degustação
O Contato
Trilogia UNIVERSO
Livro I
Trilogia UNIVERSO
Livro I
Este é o prólogo, que apresenta os preparativos para a batalha final.
A partir do capítulo 1, a narrativa mostra como Maicol, um menino de 13 anos diagnosticado com esquizofrenia, se torna o comandante das Forças de Ataque da Terra após a invasão descrita no capítulo 5.
Prólogo
O ar está frio e o manto da noite me envolve por completo com o seu véu, e todo o meu rosto, que está nesse momento descoberto sem a costumeira máscara de proteção do meu uniforme, até parece uma pedra de gelo.
Tirei uma das luvas para poder acariciar o metal, ainda mais frio, do meu caça Fireland que em poucas horas irei pilotar para, que se Deus quiser, finalmente participar da última e decisiva batalha. — pensa Maicol, enquanto anda lentamente pelas fileiras de um dos principais equipamentos das Forças de Ataque da Terra, e que foi decisivo no contra-ataque.
Em poucas horas o Sol aparecerá entre as arredondadas colinas da Área 7, ou como alguns remanescentes ainda gostam de chamar: China.
Os meus pensamentos voltam a estar em uma mistura complexa e dinâmica, demorou um bom tempo para eu conseguir conhecê-los, tanto nas suas intensidades como nas suas variedades simultâneas.
Nem com os medicamentos mais fortes que tomei, ainda jovem, para controlar o que eles chamavam de esquizofrenia, fui capaz de fazer isso totalmente, mas felizmente agora, nesses meus 42 anos, posso dizer que já consegui entender, e de certa forma, controlar também, e como eles estavam errados, a voz sempre foi real… e nunca delírio.
Nesse momento, está ficando cada vez mais forte em mim a ideia de que teremos que ser rápidos e eficazes nessa batalha para vencê-la quanto antes, isso é, se realmente quisermos ter o nosso planeta de volta.
Ao mesmo tempo, também penso nos meus filhos: Bianca e Gabriel. Eu sei que eles estão seguros na Área-2 com a Élis, não há uma mulher mais atenciosa com os seus filhos como ela; a grande coruja, como alguns a chamam.
Quando os países ainda existiam, alguns diziam que a Amazônia seria a salvação do mundo, mas é claro que eles estavam falando do combate ao aquecimento global, e não da criação da Área-2 como um refúgio para todas as nações e povos, ou pelo menos para os quase 10% que sobreviveram após a caçada, extermínio e genocídio promovido pelos Damnusianos.
Mesmo com toda essa minha… habilidade mental, que alguns teimam em chamar desse jeito, não são poucas as vezes que eu fico surpreso em ver como conseguimos sobreviver, mesmo com os exércitos mundiais aniquilados, e mais, como que em apenas sete anos saímos da nossa quase que completa extinção, com todos os países arrasados, e chegamos até aqui, no último reduto alienígena em nosso planeta, o qual precisamos capturar e destruir totalmente, antes que seja tarde.
— Está sem sono? — diz uma jovem loira sorridente, aparecendo de repente por trás da névoa que sobe de um dos caças Fireland.
— Não está um pouco cedo pra você, Yasmim? — diz Maicol, virando-se com um leve sorriso enquanto coloca a sua luva.
— Você sabe como sou, não consigo dormir antes de uma batalha, aliás, lembre-se de que foi isto que nos salvou naquele dia na Área-8, porque se eu não estivesse acordada para ver os Dam se aproximando pelo mar enquanto todos dormiam, não estaríamos aqui para mais esta missão.
— Realmente, te devemos essa. — diz Maicol, sorrindo e se aproximando com o seu 1,75 m de altura, que se contrapõe aos 1,60 m da jovem loira de cabelos lisos.
— Mais essa você quer dizer! — diz Yasmin, enquanto torce os seus lábios que ainda possuem um sorriso.
— Nessa guerra, cada um por mais comum ou simples que possa parecer, manifestou uma habilidade importante, e que contribuiu com o todo, quem sabe essa sua insônia não seja também o seu dom?
— Só vou considerar isso um elogio porque veio de você! — diz Yasmin, apontando o dedo indicador para Maicol.
— É mesmo? Por quê? — pergunta Maicol com um riso.
— Qual é Maicol? Dom é com você mesmo!
— Você sabe que não teríamos chegado até aqui se não tivesse esses dons aí, afinal, foram graças a essas suas habilidades mentais que conseguimos entender a tecnologia dos invasores para podermos adaptar as nossas armas, e com isso finalmente derrotá-los em uma batalha.
— E não é só isso, me lembro como se fosse hoje quando estávamos na invasão da Área-9, e só você mesmo para ordenar um ataque durante a noite naquele lugar, porque a Austrália pode até ter sido magnífica, mas isso foi antes da invasão.
— Mas aí, você pegou aquele Dam machucado, colocou os neurotransmissores nele, toda aquela parafernália que você costuma usar para ler a mente, depois segurou a cabeça dele bem firme, olhou fixamente em seus olhos, e eu vou confessar que levei o maior susto, porque pensei que você ia dar um beijo nele… — continua falando a jovem loira, que gesticula com os braços durante o seu relato, enquanto Maicol ri e balança a cabeça em sinal de negativo.
— Mas, aí eu não sei como, você ficou sabendo qual era o caminho menos protegido e mais vulnerável deles, cara, foi demais!
— Essa minha habilidade, ou dom, como você gosta de chamar, é apenas uma entre várias outras existentes em milhares de pessoas. — diz Maicol, que começa a andar lentamente entre os Firelands estacionados na pista de decolagem, enquanto o amanhecer ainda não demonstra que está chegando.
— Uma vez, uma amiga me disse que a nossa vitória não será alcançada por uma, e nem por duas habilidades, mas sim pela somatória de todas elas, e principalmente daquelas que a maioria das pessoas nem percebe que possui.
— Eu até acredito que algumas pessoas sabem que as têm, mas não as valorizam. — continua dizendo Maicol, enfatizando a sua fala com um gesto firme de mão.
— Do que você está falando?
— Veja todas aquelas pessoas nas áreas 1 e 2 produzindo os nossos mantimentos, os nossos suprimentos, como lutaríamos sem elas?
— Isso é verdade, porque sem dormir dá pra lutar, mas de barriga vazia não dá não. — diz Yasmin, franzindo a testa enquanto passa uma de suas mãos sobre a sua barriga.
Yasmin
A Yasmin é uma das melhores pilotas de Fireland que possuímos, ou talvez a melhor, e isso mesmo ela estando com apenas vinte e dois anos, e posso também afirmar que é uma grande amiga.
Eu a conheci quando estávamos em uma missão de resgate de sobreviventes na Área-3, mais especificamente na região central do antigo país chamado de Estados Unidos da América.
Nossa rede de informações havia conseguido captar mensagens desesperadas dos sobreviventes, enviadas por rádio amador, aqueles utilizados por caminhoneiros.
Os Damnusianos ainda estavam tentando entender como uma subespécie como a nossa, isso na opinião deles é claro, podia ter conseguido vencer duas batalhas seguidas, e mais, destruir duas grandes naves invasoras.
Então estávamos em vantagem, ainda que com poucos recursos, mas mesmo assim não podíamos perder a oportunidade de resgatar mais seres humanos.
E foi nessa missão que vi uma jovem, recém-órfã, tentando proteger desesperadamente o seu irmão mais novo.
Naquela época, ela não devia ter mais do que dezoito anos, e não teve como evitar aquele calafrio correr por toda a minha espinha quando a vi puxando o seu irmão desesperadamente pelo braço, em meio aos destroços de casas e prédios, em meio à poeira, em meio à morte.
Podiam ser ali a Bia e o Gabri, que naquela época estavam com onze e nove anos, mas mesmo assim, podiam ser eles naquela loucura.
Em um determinado momento os dois ficaram entrincheirados atrás de alguns escombros, ambos agachados, com Yasmin abraçando o seu irmão junto ao seu peito, que estava com os seus olhos fechados bem apertados, e que por certo tentava imaginar que todos aqueles tiros e explosões não eram reais… mas eles eram.
Eles acabaram ficando no fogo cruzado, bem no meio dos tiros e explosões que eram realizados, tanto por nós, como pelos Damnusianos.
Era apenas uma questão de tempo para eles serem atingidos e assim se tornarem danos colaterais, e que na verdade, de colateral não tem nada.
Não precisei pensar muito, corri na direção deles com o corpo meio encurvado para frente, atirando com a minha pistola de íons sem apontá-la corretamente, no entanto, caso eu acertasse por sorte algum alienígena ele cairia na hora, porque foi somente com essa arma, com essa tecnologia e a dos Firelands também, é que conseguimos ferir, e até aniquilar um Damnusiano, diferente dos equipamentos e das armas dos antigos exércitos que não faziam nem cócegas.
…
— Vocês estão machucados? — pergunta Maicol, agachado atrás de alguns escombros, junto de dois jovens sobreviventes.
— Não! — responde uma jovem loira com olhos arregalados, rosto empoeirado, cabelos sujos e esvoaçados, abraçada fortemente ao seu irmão mais novo, em uma missão de vida e de morte.
— Quando eu disser três corram naquela direção, não parem, não olhem para trás, e sejam o mais rápido que puderem, porque a vida de vocês vai depender disso. — explica Maicol Mopero, olhando fixamente nos olhos da jovem Yasmin, recebendo como resposta apenas o balançar de sua cabeça com várias piscadas.
— Ok! Um! Dois! TRÊS! Vai! Vai! Vai!
Assim que dou o sinal eles saem correndo exatamente como pedi, seguindo as orientações que acabo de dar, ou pelo menos, quase todas, e digo isso porque a jovem loira de repente resolve parar de correr.
Eles já estão próximos do nosso pelotão que atira com ímpeto e furor na direção do inimigo, enquanto a sargento Maria faz sinal com as mãos chamando-os em sua direção.
O menino continua correndo sem parar até chegar aos braços da sargento, no entanto, a loira para no meio do caminho, como se, por um momento os tiros que atingem o chão e os escombros ao seu redor, levantando poeira, brilho e barulho, não existissem mais.
É como se ela houvesse entrado em transe, porque nela não há mais a expressão de medo, ao invés disso ela fica parada e ereta, girando lentamente o seu corpo em minha direção, como se tudo estivesse acontecendo em câmera lenta, como se as coisas ao seu redor tivessem deixado de ter sentido, e isso no mesmo instante em que ela ouve o meu grito, enquanto sou baleado.
Fui atingido na perna direita e no abdômen, mas mesmo com muita dificuldade ainda continuo atirando, enquanto me rastejo e gemo entre os escombros.
Os Damnusianos vendo isso passam a concentrar os seus tiros em minha direção, eles querem terminar o serviço por completo.
Sou atingido pela terceira vez, e por isso paro de atirar, porque não consigo mais me concentrar; me encosto atrás de uma placa de concreto quebrada que faz parte dos destroços para me proteger e ganhar fôlego.
Olho na direção da Maria para ver se as crianças conseguiram se salvar, e para a minha surpresa vejo apenas o pequeno menino atrás dela agarrado em sua perna, ao mesmo tempo que a minha visão é toda tomada por uma jovem loira de cabelos esvoaçados, com a cara toda empoeirada e olhos arregalados, se jogando em cima de mim.
— Ahhhhhhh!
— Me desculpa! Me desculpa! — diz Yasmin, saindo de cima do comandante das Forças de Ataque da Terra, que está sentado, sangrando e se contorcendo de dor.
— Você… tinha… que estar com seu irmão!
— Você arriscou a sua vida para nos salvar! Hora de retribuir o favor! — diz Yasmin, com os seus olhos claros todo empoeirado e ainda mais arregalados, e sem piscar.
— Hora de ser uma combatente da FAT então, jovem, tome, é só mirar e apertar esse botão, ela não dá solavanco. — diz Maicol, entregando a sua pistola de íons enquanto se contorce de dor.
Essa jovem maluca veio como um furacão para cima de mim, mas devo admitir que ela tem muita coragem, e é disso que precisamos.
Ela começa a atirar na direção dos Damnusianos e meio que sem querer até acerta um. O Ruares se levanta e tenta vir em nossa direção para ajudar, mas os tiros se viraram para ele, fazendo-o voltar rapidinho.
A jovem me ajuda a levantar, e com o seu auxílio consigo voltar a caminhar, tentando nos proteger em meio aos destroços da melhor forma que conseguimos.
A batalha fica ainda mais intensa, mas o segundo grupo liderado pelo Flávio dá a volta e cerca os alienígenas, para a nossa sorte, e com isso conseguimos eliminar todos eles.
…
Depois de tudo aquilo que aconteceu naquele dia, e com o término do tiroteio, eu voltei a ficar praticamente deitado no chão mal conseguindo me mexer.
Até ficar com os olhos abertos estava sendo uma batalha pessoal para mim naquele momento, o máximo que consegui ver foi aquele jovem rosto empoeirado do meu lado segurando a minha mão, enquanto também ouvia algumas vozes ao longe dizendo algo sobre: deem espaço, tragam a maca, e coisas desse tipo.
No final voltamos para a Área-1, a única que tínhamos naquele momento, mas que abrigava cada vez mais sobreviventes do quase extermínio.
O restante da história foi que a Yasmin e seu irmão, que ela chama de Bob, mesmo não sendo esse o seu nome, se juntaram ao grupo, e felizmente o seu idioma é o inglês, e muitos de nós o conhecemos, o que facilita muito a integração do sobrevivente em nosso meio.
Existem muitos casos em que a pessoa que resgatamos fala apenas o seu idioma nativo, como por exemplo o Fulfulde, falado no Senegal e em Camarões, de onde também resgatamos sobreviventes.
Mas, mesmo com a barreira do idioma, a vontade de viver, a vontade de sobreviver, acaba sendo a maior motivação para todos se entenderem.
E não tem como deixar de se impressionar com o fato de que foi necessário a morte de quase noventa por cento dos habitantes do planeta para que nós, os seres humanos, conseguíssemos romper as barreiras intransponíveis que nós mesmos havíamos criado.
Foi diante da nossa quase extinção que as diferenças que muitas vezes considerávamos como insuportáveis, como a cor da pele, altura, peso, etnia e nacionalidade, perdessem totalmente o seu sentido.
Hoje não importa se você é branco, preto, amarelo, se é alto, se é baixo, se nasceu no norte ou no sul, se é do ocidente ou do oriente, ou qual idioma fala, nada disso importa mais, porque você é apenas um Humano.
Nessa nossa Área, nessa nossa nova sociedade, todos buscam se aceitar, se ajudar, e para isso adotamos uma língua em comum para ser falada na Área, e o critério foi qual era a mais fácil de se aprender, na opinião da maioria, independentemente de qual país fosse.
Talvez devido a um resíduo da disseminação cultural na antiga Terra, o inglês acabou sendo eleito e se tornou a nossa língua oficial.
Com relação às normas para regulamentar o convívio social, procuramos montar uma baseada nas mais simples, porque na maioria das vezes, é o simples que funciona.
Já com relação à crença, a maioria concordou que todos que possuem algum tipo de fé, e isso me inclui, devem buscar adorar a um Deus criador de todas as coisas.
Ao ver o literal milagre de ainda estarmos vivos, a maioria acabou buscando refúgio no invisível, no Divino, o que gerou paciência, e com ela a experiência, e com ela o ressurgimento.
Na Área 1 e 2 todos fazem alguma coisa, não há espaço para ser ocioso, e a Yasmin encontrou uma atividade rapidinho, a de ser pilota de caça Fireland, e como somos poucos, não desprezamos uma boa guerreira, mesmo que ela ainda seja jovem.
— Comandante! — diz um soldado que se aproxima correndo na pista de decolagem dos Firelands.
— Sim! — responde Maicol, virando-se na direção dele.
— O general quer vê-lo, ele o aguarda na sala dos radares!
— OK! Obrigado, diga-lhe que já estou indo!
— Pois é Maicol, o chefe quer vê-lo. — diz Yasmin, agora parada ao lado de seu Comandante.
— Está chegando a hora! E sobre essa batalha…
— Não, Maicol!
— Nada de seus famosos pressentimentos, que já nos ajudaram muito, mas hoje não, deixe pra dizer tudo quando voltarmos vitoriosos. — diz Yasmin, dando um passo em direção a Maicol, falando de forma séria enquanto olha fixamente em seus olhos.
— Agora vá, não se deve deixar o general esperando. — diz a jovem loira virando-se de costas.
— Tudo bem, mas Yasmin… tenha cuidado! Por favor!
— Ei! Eu sempre tenho! — responde a jovem loira, sorrindo e balançando a cabeça enquanto se afasta de Maicol, o que se contrapõe ao olhar pensativo e preocupado de seu amigo.
Grupo Avançado!
Assim que chego ao prédio onde foram instalados os radares que irão nos auxiliar no ataque, eu procuro o general Bronwen,
Quando a invasão da Terra começou, o General estava em viagem de férias pela América Central, ele havia servido nas forças armadas da antiga Inglaterra, mas já fazia alguns anos que se aposentara.
Durante os anos em que serviu sempre esteve nas linhas de frente nos campos de batalha, e por isso quando os militares da ativa dos diversos países haviam sido derrotados, e a grande maioria deles mortos ou presos, entrou em ação a experiência do general Bronwen.
Nos primeiros dois anos da invasão, o General procurava usar todo o seu conhecimento para ajudar os sobreviventes da América Central a se protegerem, a lutarem, e na maioria das vezes a fugirem dos invasores.
Sempre mantendo a serenidade adquirida pela experiência em campos de batalha, o General conduzia os sobreviventes, dando uma sobrevida em um momento em que não se encontrava uma saída para enfrentar o inimigo, em um momento em que não havia esperança.
Ele é um homem sereno que demonstra sempre uma postura de confiança, um dos seus provérbios preferidos é: Triunfa na guerra, aquele que acredita por mais tempo que pode vencê-la.
Um homem que conquista rapidamente o respeito de todos aqueles com quem tem contato, muitos até pensam que ele é um “lorde” inglês, e isso devido à sua postura educada, clássica e firme.
Um exímio planejador e muito concentrado em seus objetivos, muitos dizem que ele nunca sorriu, e isso porque consegue esconder facilmente os seus sentimentos do público.
Talvez esse tenha sido o segredo do seu sucesso nas forças armadas inglesas, ou talvez tenha sido a sua inteligência ímpar, que se destoa da coletividade.
Conheci o General quando, com o meu grupo recém-formado e intitulado de Forças de Ataque da Terra, ou simplesmente FAT, iniciou as suas operações na América Central.
E foi nessa operação que percebi rapidamente que precisávamos dele para nos organizar e assim continuar com o contra-ataque.
— Me chamou, General? — pergunta Maicol, entrando na sala onde há várias telas de radares e painéis, com uma grande mesa iluminada no centro.
— Sim, Maicol!
— Venha até a mesa, quero te mostrar uma coisa. — diz o General, apontando com o seu olhar para a mesa, da qual emana uma luz branca.
— Os nossos sensores verificaram que o campo de força eletromagnético que envolve a base alienígena está diferente.
— Diferente?
— Sim, acreditamos que eles conseguiram desenvolver alguma coisa em seus reatores de energia, e isso duplicou, ou até triplicou, a potência do escudo.
— Com toda esta energia não conseguiremos penetrá-lo com as nossas armas, e nem tão pouco com os caças Fireland.
— General, de onde está sendo emitida a energia do escudo?
— Há aproximadamente quinze quilômetros a leste da base alienígena, que está no monte Shikawa, veja essa imagem do nosso satélite. — diz o General, apontando com o dedo indicador um local na mesa de tampo iluminado.
— Com essa não contávamos, teremos que rever todos os nossos planos, comandante Maicol.
— Existe uma possibilidade!
— Possibilidade? Qual?
— Se penetrarmos na área inimiga com um pequeno grupo avançado e levarmos explosivos C4, poderemos destruir aquela Torre de transmissão de energia, isto provocará uma reação em cadeia no escudo, criando uma passagem pequena, então teremos cerca de dez ou quinze minutos até que eles consigam reorganizar a transmissão por aquela Torre auxiliar, a oeste do monte.
— E isso é tempo suficiente para um grupo de Fireland entrar na zona inimiga e bombardear o reator de energia, o que fará cair todo o escudo de defesa deles.
— Sim, mas como este grupo avançado poderá chegar até a Torre, vão precisar passar pelo escudo primeiro?
— Veja General, nesta imagem do satélite, podemos entrar submergindo neste rio; ele possui valas laterais que o escudo de força não isola, as passagens são pequenas, mas acredito que dê para os nadadores atravessarem.
— Não Comandante, me parece muito arriscado.
— General, lembra a situação que vivemos na Área-5?
— Fiz algo parecido e deu certo. — diz Maicol, virando-se para o lado, para ficar de frente com Bronwen.
— Qual seria o tamanho deste grupo avançado?
— Vinte e cinco combatentes são o suficiente.
— Vinte e cinco combatentes? — pergunta o general de forma retórica, enquanto pisca algumas vezes.
— Acredito assim como você, que temos combatentes capazes de entrar e de chegar até aquela Torre sem serem percebidos, porém, após a explosão muitos inimigos vão se dirigir para aquele local, talvez centenas, ou milhares, como o nosso grupo conseguirá sair?
— Bem, este grupo precisará após a explosão se dirigir para aquela colina — diz Maicol, sendo ele agora a apontar com o dedo um local na mesa — ali eles conseguirão se defender tempo o suficiente até que um grupo de helicópteros faça a extração.
— Os alienígenas nessa altura estarão mais preocupados com o ataque dos Fireland ao reator do que necessariamente em matar o grupo avançado.
— Os riscos são imensos neste plano, Maicol.
— E quais planos nessa guerra não foram arriscados?
— Não foi exatamente por sermos ousados e criativos que conseguimos reverter uma guerra perdida?
— Bronwen, adiar o fim desta guerra, a nossa vitória, é justamente o plano do inimigo. Desde que conseguimos a retomada do controle do espaço aéreo e da atmosfera terrestre, eles tentam ganhar tempo, e nós dois sabemos o porquê.
— Você tem razão, o último movimento de nosso inimigo demonstra que eles não querem mais ganhar esta guerra, mas sim estendê-la o máximo de tempo possível, estamos correndo contra o tempo.
Há mais alguns oficiais na sala, mas como de costume eles mais ouvem do que falam, e isso não é porque reprimimos a livre manifestação deles, nada disso, é que naturalmente os nossos resultados individuais acabaram ganhando muito respeito e prestígio com a equipe, e às vezes isso é até um problema, porque sempre se espera muito de nós, ainda que sejamos apenas humanos.
— Bem, então senhores, sugestões? — pergunta Bronwen, olhando para cada oficial presente, obtendo o silêncio como resposta.
— Sendo assim, comandante Maicol, precisamos definir quem irá compor este grupo avançado.
— Eu jamais diria para alguém fazer algo que eu mesmo não estivesse disposto a fazer, então irei com o pelotão do capitão Sandro, eles são os melhores.
— Muito bem, prepare o seu pessoal, precisamos iniciar o ataque antes do nascer do sol, a escuridão irá ajudar o grupo avançado, e que Deus nos ajude.
— Ele já está ajudando, Bronwen.
Fênix
Me dirigi até o alojamento onde está o pelotão do capitão Sandro, que tem por codinome Fênix, uma homenagem por serem o primeiro grupo da Terra a vencer um ataque contra os alienígenas, e isso em um momento em que todos falharam, por isso posso afirmar que esse grupo literalmente ressurgiu das cinzas e iniciou o contra-ataque.
Eu e o Sandro nos conhecemos muito antes da invasão, na verdade, além de amigos também trabalhamos juntos, ele foi o supervisor de segurança dos meus empreendimentos.
Posso dizer em primeira mão que ele é um homem de grandes qualidades, e uma delas com certeza é a coragem, e somente os mais destemidos aceitarão esta missão, porque apesar da confiança que procurei demonstrar na sala, eu sei que as nossas chances de voltar são muito pequenas, mas isso não importa para mim, porque precisamos terminar essa guerra agora, ou perderemos tudo.
Após colocar Sandro a par de todos os detalhes do que estava acontecendo e receber a já esperada concordância dele em participar, nos dirigimos até o alojamento dos soldados do grupo Fênix.
— Sentido! Oficial no alojamento! — bradou um soldado do grupo Fênix ao ver Maicol e Sandro entrarem, fazendo com que todos deem um salto de suas camas para ficar em pé.
— A vontade! — diz Maicol, parando à frente da porta.
— Combatentes, preciso de um momento de atenção.
— O que irei dizer agora não é uma ordem, e nenhum de vocês, em hipótese alguma, é obrigado a aceitar. — diz Maicol, olhando para todos os Combatentes que estão de lado, formando duas fileiras, o que deixa um corredor entre elas.
Até posso ver surgir um sinal de interrogação em seus olhos enquanto falo, afinal, todos eles, homens e mulheres, estão prontos para atacar o inimigo, então por certo devem estar pensando: o que o Comandante está planejando nesse momento tão esperado?
— Nossos sensores detectaram que os alienígenas fizeram alguma alteração no escudo, e ele agora está muito forte, o que impede que as nossas armas e caças penetrem.
— Existe uma alternativa, que é muito arriscada, e por isso somente poderei contar com voluntários.
— Um grupo pequeno deverá entrar cerca de vinte quilômetros dentro do território inimigo, sem tanques, sem caças, somente com armas portáteis e explosivos. — explica Maicol, enquanto é observado atentamente pelos combatentes enfileirados, que estão com os seus semblantes franzidos.
— Esse grupo deverá explodir uma Torre de transmissão de energia do campo de força, com a destruição dessa Torre os nossos caças Fireland terão no máximo quinze minutos para entrar na área inimiga e destruir o reator de energia.
— O grupo avançado deverá se proteger e resistir dentro do território inimigo até que os helicópteros de resgate consigam extraí-los. Para isso o grupo também levará localizadores eletrônicos.
— Acredito que após a explosão da Torre esse grupo será atacado por centenas de inimigos.
— Por isso, Combatentes, não posso ordená-los a irem nessa missão, porque somente posso prometer a vocês que levarei um grupo até aquela Torre, e iremos explodi-la.
— Mas, quanto a voltar para a nossa base, e para aqueles que nos amam e nos esperam, isso eu não posso prometer.
— Vocês têm lutado de forma muito valorosa nessa guerra, e caso alguém não queira ir, não será nenhuma vergonha ou demérito.
— Somente vou nessa missão porque acredito que não temos muito tempo, e que a vitória é necessária agora, e também de que esta missão é a única forma de consegui-la.
— E a vitória desta guerra para mim é a coisa mais importante neste momento, pois a minha família, os meus amigos, os seres humanos que sobreviveram merecem ter uma nova chance, e para que eles tenham isso, eu luto e arrisco tudo. — encerra Maicol, sendo ouvida em seguida a voz firme de Sandro, que diz:
— Quem irá nesta missão dê um passo à frente. — brada Sandro, ouvindo-se em seguida de forma sincronizada, e em um único som, o passo dado por todos aqueles que estão presentes, como se fosse um instrumento, um sino, anunciando a chegada da hora decisiva, a hora que poderá libertar toda a Terra do domínio Damnusiano, uma vitória em que há grandes chances de custar a vida do grupo que iniciou o contra-ataque da raça humana… e também de seu Comandante.
CENAS PÓS-CRÉDITO
Me levanto com dificuldade, e volto a atirar e a caminhar cambaleante… e não vou parar. — pensa Maicol, até ter o seu colete atingido por dois tiros frontais, sendo jogado em seguida a vários metros para trás, caindo no chão, onde fica com a visão turva e embaçada como em um dia chuvoso, girando a sua cabeça lentamente de um lado para outro, buscando ainda encontrar a sua arma, enquanto tosse e cospe sangue, parando poucos segundos depois ao ver em pé ao seu lado um gigante de três metros com uma arma apontada em sua direção.
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